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vinham muitos
rosas
innersmile


Não sei quantos é que vinham. Vinham muitos, seminus, pintalgados de seivas e de cinzas, reluzentes de suor, com enfeites de penas e de conchas, e a entoar uns cantares que pareciam sons da terra. Cantavam muito afinados, com vozes de vários timbres harmonizados por silvos e o bater dos pés no chão. Traziam lanças e varas e chocalhos e tambores e instrumentos de chifre e de bambu, e outros feitos de cabaças e, de vez em quando, alguém soltava um grito que parecia uma ordem de combate e destacava-se um coro, em pouco estridente de vozes de raparigas e logo outro, masculino, respondendo em notas graves.

Subiam até à casa, davam a volta à fachada, cantando e dançando sempre, até que, de repente, se detinham. Calavam-se ao mesmo tempo como se fosse o desligar repentino de um aparelho de rádio, e, um instante a seguir, explodiam, numa saudação parecida com o rebentar de uma onda gigantesca:

BAY-EEEEE-TE!


- Luís Amorim de Sousa, O PICO DA MICAIA