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com a mesma mão
rosas
innersmile
Vim a casa pôr umas coisas numa maleta, o robe, pijamas, chinelos e um estojo de toilette. Arrumar as coisas, sentir-lhe o cheiro nelas, admirar o cuidado das dobras, dos vincos, tocar-lhes a simplicidade do algodão. Como se cada peça de roupa, dessas de andar por casa, domésticas, íntimas, trouxesse marcada a sua pessoa, a história, aquela cabeça gloriosa que nunca pára de me emocionar e surpreender.
Depois voltei, e já a encontrei bem disposta, animada, tranquila. Nada, nos gestos, nos carinhos, no sorriso, dizia que apenas duas ou três horas antes, um ventrículo tinha disparado em batimentos caóticos, fazendo o coração fibrilar quase até ao colapso, e exigindo manobras de ressuscitação, como as dos filmes.

Medroso, assustado, um nó de preocupação, atravesso corredores. Ninguém sabe a razão porque ali estou e dão-me abraços, perguntam-me se regresso. Chamam-me filho pródigo. Põem-me um braço sobre os ombros e começam-me a contar um problema, como se eu o pudesse resolver. Dizem-me que faço falta, muita falta, e que agora não há outro como. Uma sensação estranhíssima: medroso, assustado, um nó de preocupação, mas com o ego inchado. A vida consegue dar-nos sempre, e com a mesma mão, o pior e o melhor, o inferno e o paraíso.