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A editora Bico de Pena publicou Os Anjos Maus, mais um livro da colecção Pena de Pavão, especialmente dedicada à literatura de temática homossexual. O seu autor, Éric Jourdan, escreveu-o quando tinha 17 anos e a primeira edição do livro, em 1955 foi escandalosa e originou a sua censura durante mais de trinta anos. Trata-se do relato de um amor adolescente, ou melhor de dois relatos, já que o livro se divide em duas partes, correspondendo a cada uma delas o relato de cada um dos protagonistas, em tons diversos, e mesmo contraditórios, e que correspondem aos temperamentos e ao modo como cada um deles vive a paixão. Num estilo lírico, que celebra a beleza da juventude e a juventude da beleza, ousando a crueza quando ela faz sentido, a história de Pierre e Gérard assenta em três pilares: o amor, a sexualidade e uma pulsão auto-destrutiva, que pode ser particularmente violenta. É, para o meu gosto, um livro mais interessante do que propriamente envolvente, apesar das passagens sobre a beleza física dos protagonistas ter passagens muito belas.


Confesso que me entusiasmou bastante mais o livro O Pico da Micaia, da autoria de Luís Amorim de Sousa (editado pela Assírio & Alvim). Apesar de primeiro o ter enquanto poeta, com o livro Ultramarino, este é já o terceiro livro de memórias do autor que leio, depois de dois volumes dedicados à sua vivência londrina, Crónica dos Dias Tesos e Londres e Companhia. O Pico da Micaia, como o título deixa perceber, dedica-se às memórias africanas, nomeadamente à infância e juventude do autor, passada em Moçambique. Uma das coisas que contribui para o prazer de ler estes relatos auto-biográficos, é a própria escrita do autor, muito simples e cuidada, num registo destituído de qualquer afectação literária, e que é especialmente indicado para o estilo memorialista.
Estou a gostar bastante do livro, não só pela escrita, que é deliciosa, mas também porque é dos livros onde vejo com mais rigor retratada o que foi uma certa vivência colonial. Apesar do tempo do autor ser muito diferente do meu, há muitas coisas que reconheço, quer pelas minhas próprias memórias, quer por histórias de família que fui aprendendo. Mais do que as experiências em concreto, os episódios, as peripécias, resulta do livro um modo de viver que era muito típico do tempo em que Moçambique era uma colónia portuguesa.