?

Log in

No account? Create an account

I must have read a while
rosas
innersmile
Leio de raspão algures na net que morreu a escritora Marilyn French. Nunca li nenhum livro seu, nem lhes conhecia os títulos, não sabia rigorosamente nada acerca da sua vida ou da sua pessoa. Nada. Quer dizer, nada, excepto uma frase da letra daquela que é a minha canção preferida dos ABBA, The Day Before You Came. Uma canção que eu adoro, acerca da qual já escrevi aqui muitasvezes, e até já escrevi, sob sua influência, mais do que um conto. Na última estrofe da canção, quando a protagonista da canção (sim, protagonista, já que é de uma narrativa que se trata) chega a casa por volta das oito, depois de passar pelo restaurante chinês para comprar o jantar, que comeu a ver o episódio do Dallas, deita-se às dez e pouco, porque precisa de dormir muitas horas, e lê, tcharam!, "the latest one by Marylin French or something in that style". E logo depois, conclui, com a frase que dá todo o sentido à história: "it's funny, but I had no sense of living without aim, the day before you came".

Das várias versões que a canção já conheceu, a primeira foi dos Blancmange, logo em 1984, ainda o cadáver dos Abba não estava bem frio: The Day Before You Came é normalmente considerada a úlitma canção que o grupo gravou, em 1982. Nessa versão o grupo inglês trocou essa parte da letra e cantava "the latest one by Barbara Cartland".

Quanto à Marylin French, fui ler os obituários publicados nas versões on line de alguns jornais, onde aprendi que foi uma pioneira do movimento feminista. No seu primeiro romance, The Women's Room, publicado em 1977, há uma personagem que afirma "All men are rapists, and that’s all they are. They rape us with their eyes, their laws, and their codes".

Entretanto li também que em 1992 foi-lhe diagnosticado um cancro no esófago. O prognóstico era o pior possível, e os médicos deram-lhe muito pouco tempo de vida. Seguiu-se a luta contra a doença, que Marylin French relatou num livro de memórias intitulado A Season in Hell. E a este propósito, o New York Times cita uma frase verdadeiramente admirável da autora: "I cannot say I am happy I was sick. But I am happy that sickness, if it had to happen, brought me to where I am now. It is a better place than I have been before." Caraças, até se me enrola a garganta. Como se já não bastasse ser citada numa das minhas canções preferidas, esta frase eleva a Marylin French praticamente à condição de minha irmã.