?

Log in

No account? Create an account

andré fernandes, amália hoje
rosas
innersmile
Como referi ontem, além do disco do Caetano Veloso, comprei mais dois cd’s que tenho estado a ouvir.

Um deles é do guitarrista português André Fernandes. Há cerca de um ano comprei o seu cd anterior, Cubo, um disco muito inovador e criativo, com uma escrita muito livre, um jazz surpreendente e estimulante. A formação desse disco era o quarteto, com Mário Laginha, no piano, Alexandre Frazão, na bateria, e Nelson Cascais, no contrabaixo, além, claro, do guitarrista. Uma formação de luxo, e o disco evidenciava isso muito bem. Agora em Imaginário, o novo álbum, a formação desse quarteto mantém-se em 4 faixas (uma delas com a participação de um DJ a fazer scratch). Em duas faixas funciona um outro quarteto, com Bernardo Sassetti, piano, Demian Cabaud, contrabaixo, e Marcos Cavaleiro na bateria. Mais uma faixa, em terceto, com o mesmo Marcos Cavaleiro, e Bernardo Moreira, no contrabaixo. Como se vê, alguns do melhores instrumentistas do jazz nacional, num disco que parece desenvolver e aprofundar algumas das premissas abertas em Cubo, mas em que os temas são de certa forma mais envolventes.

O outro disco que comprei foi uma surpresa admirável. Quer dizer, eu arranjei maneira de ouvir o disco mas gostei tanto que fui comprá-lo. Trata-se do projecto Amália Hoje, concebido e realizado pelo Nuno Gonçalves, dos The Gift, com a participação de três vocalistas, a extraordinária Sónia Tavares, também dos The Gift, o Fernando Ribeiro, dos Moonspell, e o Paulo Praça, que eu não conhecia, e que recria, em sonoridades pop, 9 canções que Amália Rodrigues cantou, entre elas alguns dos fados mais emblemáticos da cantadeira nacional.

Confesso que o que não cessa de me espantar no disco é precisamente o facto de Nuno Gonçalves e os seus colaboradores terem conseguido despir estas canções das entoações fadistas que são não tanto a sua imagem de marca, mas sobretudo a marca com que se inscrevem no nosso consciente, na nossa memória e até na nossa imaginação. Reconhecemos as canções, as palavras, as melodias, mas há assim uma espécie de desamparo por nos faltar o tom fadista. Mas se num primeiro momento nos faz falta o fado para nos dar uma referência emocional, estas canções são investidas de uma grande densidade dramática, nalguns momentos mesmo épica, que nos envolve e exalta e nos leva a experimentar outras emoções e outros sentimentos.

Não sei se estou a exagerar, mas parece-me um disco verdadeiramente extraordinário, uma daquelas obras que nos surpreendem e que ao mesmo tempo se tornam clássicas.
E depois há dois ou três momentos verdadeiramente sublimes, em que a voz da Sónia Tavares se ultrapassa e nos esmaga por completo.
Tags: