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a queda
rosas
innersmile
margot e rudolf

há uma mulher frágil, de bambu, que segura num abraço as coxas amplas de um rapaz. o olhar dela perde-se na vertigem do tronco caído, um desamparo, a impossibilidade de suster a queda. os braços do rapaz, uma cruz invertida, procurando consolo. um ombro, imponderável como a raíz do mundo. e o rosto espalmado no chão, como se a alma tivesse fugido, e tudo que já resta é um coração ofegante que bate.


[a propósito de uma fotografia da Colecção Alberto de Lacerda, Um Olhar]

na guatemala.4
rosas
innersmile
6.4.09
A manhã começou com um passeio de lancha pelo lago Atitlán, um lago vasto e profundo que nasceu da explosão de um vulcão. Fomos até ao outro lado do lago, a Santiago de Atitlán, uma aldeazinha situada a sudoeste do lago, numa pequena reentrância em forma de ferradura, que fica entre três vulcões: mesmo em frente do cais, do outro lado da nesga de água, o San Pedro, atrás da aldeia, os vulcões Taliman e Atitlán. O mais imponente dos enquadramentos, para um pueblo pequeno e modesto.

Visitámos a igreja, que estava a ser limpa pelos aldeões, pendurados em incertas escadas de madeira a lavar as paredes. As imagens dos santos embrulhadas em plásticos, a darem um tom surreal aos altares. A seguir os miúdos da aldeia, a troco de alguns quetzales, foram, estrada acima, mostrar-nos a casa onde está o Maximón, uma das principais divindades pagãs da cultura maya, e exemplo do sincretismo religioso que permite a estes deuses pagãos a entrada nas igrejas católicas: ontem, na igreja de Chichicastenango, havia um altar com a figura do Maximón. Fomos encontrá-lo no terreiro de uma casa, ladeado por dois homens que lhe dão de beber e de fumar, a cobrar mais quetzales quer pela entrada no terreiro quer pelas fotos que se tirem. Eu tirei uma, à socapa, da janela da rua.

Visitar a Guatemala nesta altura do ano tem a desvantagem de haver uma alteração uma grande à normalidade, por causa das férias da semana santa, nomeadamente com os museus e grande parte do comércio fechados. Mas tem a incomparável vantagem de podermos assistir à intensidade e ao espectáculo das celebrações religiosas da Páscoa, tal como é vivida por estas pessoas, com o pagão a cortar e a moldar o religioso.

Ainda em Santiago comprei uns pantalones típicos, uma espécie de bermudas, brancas com riscas vermelhas, que terminam com um esfuziante bordado com pássaros, e também a faixa para cingir a cintura. Paguei uma pipa de massa por uma coisa completamente inútil, um disparate, mas desde que cheguei e vi alguns homens com estes calções vestidos, meti na cabeça que tinha de comprar uns. Só uns vinte minutos depois de ter saído da loja é que me bateu que tinha acabado de deitar fora quase cem euros...

As viagens de barco pelo lago são formidáveis. Nas margens, gigantescas montanhas vulcânicas esmagam e enaltecem. A água tem uma cor escura, mas pura e cristalina, e fresca sem ser fria, que chama ao mergulho. Um lençol tranquilo, que convida à descontracção, à paz, à reflexão.

Regressámos a Panajachel para almoçar e depois arrancámos de regresso à cidade de Guatemala. A viagem não foi feita pela estrada interamericana de ontem, mas por uma secundária, muito sinuosa, a contornar as vertentes agrestes e abruptas das montanhas. Como a estrada fica fora dos roteiros turísticos, tivemos de fazer parte da viagem com escolta policial.
Já à chegada a Guatemala houve um incidente mesmo à frente do nosso autocarro: dois cães completamente desorientados meteram-se no meio do tráfego infernal da auto-estrada e, claro, um deles foi atropelado e provocou um acidente entre o carro que o atropelou e uma motocicleta. O condutor da motocicleta deu uma cambalhota mas não pareceu ter-se magoado muito. O carro desapareceu, mesmo sem para-choques traseiro. Claro que eu não olhei, para não ver e ficar marcado pela imagem do acidente, mas mesmo assim impressionou-me olhar para os cães e perceber que iam morrer logo a seguir.











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