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a casa
rosas
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A semana passada, logo após ter chegado de férias, comprei o catálogo da exposição ‘Colecção Alberto de Lacerda: Um Olhar’, editado pela Assírio & Alvim. Para além das reproduções das obras de arte que Alberto de Lacerda foi coleccionando ao longo da vida, o livro, em forma de álbum, reúne ainda um acervo de iconografia vária relacionada com o poeta: fotografias, cartas, autógrafos, reprodução de capas de livros e de discos (e não se pense que estamos a falar apenas de cultura erudita, há duas fotos da capa do célebre disco da banana, dos Velvet Underground). Não vi a exposição, que permanece até final de Maio na Fundação Mário Soares, que, por iniciativa de Luís Amorim de Sousa, o guardião das coisas de Alberto de Lacerda, abriga todo o espólio do poeta. No site da Fundação Mário Soares, há uma página dedicada à colecção e que tem praticamente todos os textos e demais materiais que vêm incluídos no catálogo.

Alberto de Lacerda é uma das personagens principais aqui do meu diário, porque é um dos meus poetas preferidos. E porque, por razões íntimas que prefiro não analisar, me toca em algumas partes sensíveis. Algumas dessas coisas estão plasmadas neste poema, que vem reproduzido, em fac-simile do manuscrito, no catálogo (tal como a reacção que lhe mereceu a pintora Paula Rego, e que é tão notável como o poema). Não me está muito a apetecer ir ali procurar nos livros que tenho de Alberto de Lacerda se lá tenho o poema, por isso vou reproduzi-lo do catálogo. Espero que não tenha erros por má interpretação da letra do poeta, mas se tiver, paciência, isto também é mais só para mim.

A casa ficou por construir
Cheguei tarde
E o ardor mútuo não impede
Que os nossos caminhos
Sejam diferentes

A casa ficou por construir
As várias salas
Os longos corredores
O quarto mais tranquilo
Com seu leito

A janela rasgada
Donde te veria surgir
Todos os dias
A lareira que nos protegeria
Do que a vida tem de enregelado

O suceder das estações acompanhando
O acumular dos anos e a confiança
Que um amor profundo dissemina

Vivo num cacifo solitário
No outro lado do oceano
Longe tão longe donde tu nasceste

Mas a casa
Nossa
Ficou por construir

Pássaro ferido
Sou um hóspede
No teu coração

[Boston, 14 de Janeiro de 1994]