April 16th, 2009

rosas

in memoriam

"Por razões ligadas à minha profissão, as doenças oncológicas, e as pessoas que as sofrem, estão muito presentes no meu dia a dia. Além disso eu próprio tive cancro, há mais de vinte anos, e sobrevivi. Mais recentemente, algumas pessoas que me estão muito próximas, amigos e familiares, também sofreram de cancro e curaram-se. Por todas estas razões habituei-me a olhar para o cancro não tanto como uma ameaça de morte mas sobretudo como um assunto de vida. É, como no poema do Drummond, uma pedra no meio do caminho, uma pedra enorme, um pedregulho, mas que se ultrapassa, há luz do outro lado do túnel, ainda que não se vislumbre até estarmos já bem perto da saída. Claro que quando sei que foi diagnosticada uma doença destas a alguém que me é próximo, fico triste e preocupado, sinto um certo desânimo porque sei que se seguem meses de uma luta terrível e esgotante (para o doente e para as pessoas que lhe estão próximas). Mas, se calhar até por um mecanismo qualquer de defesa, não penso na morte. Não penso que é uma sentença de morte; penso antes que se calhar é uma daquelas condenações a trabalhos forçados, mas que tem um fim à vista, por muito longínquo e difícil que pareça de alcançar.
Sendo que a morte é sempre extemporânea, quando ela ceifa as vidas jovens é ainda mais brutal e chocante. E quando as vidas em causa são de pessoas talentosas, que ocupam o espaço público com a sua arte, que seguem um sonho e o partilham mais por condição do que por vocação, acrescenta-se sempre um sentimento de perda e desperdício. Mas confesso que o que mais me chocou na morte do músico João Aguardela foi a notícia de que a causa da morte foi o cancro. De alguma forma, isso torna a perda e o desperdício ainda mais injustos.
Interrompi muitas vezes este texto, e mesmo agora não sei como dar sequência à frase anterior. Nem percebo muito bem porque é que fiquei tão perturbado. De certo modo esta morte do JA veio-me lembrar que, mesmo para um tipo com menos de 40 anos e com possibilidades, o cancro ainda pode ser, quer dizer, ainda é uma doença mortal. Há coisas que na minha cabeça não batem muito bem, e isto de uma pop star ter um cancro e morrer não faz muito sentido. Ok, ouvimos as histórias de celebridades que tiveram um cancro e conseguiram vencê-lo. É como se fosse a vitória do bem sobre o mal.
Agora o cancro é uma doença demasiado insidiosa e traiçoeira, e saber que ela ganhou desanima-me. Habituei-me nestes últimos tempo a perder o medo do cancro, sobretudo depois de duas pessoas de quem estou muito próximo terem vencido a doença, e isso, não o posso negar, dava-me algum conforto. Mas também já estou um bocado habituado a viver com estes recrudescimentos da angústia. Apesar de já terem passado muitos anos, aprendemos a viver com o medo, mas não o domesticamos."


Escrevi este texto uns meses atrás, de chofre, e sob efeito do choque da notícia da morte, por cancro, do músico João Aguardela. Decidi, na altura, não o pôr de imediato on-line, e esperar uns dias para o reler. Nunca senti que fosse o momento de o publicar, e o texto foi ficando no arquivo do computador. Lembrei-me dele a semana passada quando, numa pausa das andanças na Guatemala, fui espreitar na internet do hotel onde estava os blogs de alguns amigos, e descobri que tinha morrido, igualmente por cancro, uma pessoa que conheci aqui das andanças da blogosfera. Vamos chamar-lhe C., para facilitar o discurso.

Custa-me reivindicar, unicamente por pudor, para o C. a condição de 'amigo', porque o contacto que tivemos foi muito fugaz. Estivemos juntos em duas ocasiões, mas na primeira creio que nem chegámos a trocar palavra. Na segunda sim, e a(s) conversa(s) espraiou-se por um dia inteiro, num piquenique muito feliz que reuniu umas duas dezenas de pessoas numa jornada extraordinária. A seguir a esse dia maravilhoso, o C. passou a comentar os meus textos. Apesar de não ter um blog, o C. marcou presença em vários blogs através dos seus comentários, que eram verdadeiramente especiais: porque diziam sempre respeito ao assunto em questão, porque respeitavam o tom usado, sério ou divertido, porque diziam sempre coisas interessantes e apropriadas. Porque, enfim, reflectiam o facto de o C. ser um tipo culto e informado, e que sabia escrever em bom português. Passadas algumas semanas o C. foi de férias, ainda voltou aos comentários por uns dias, e tornou a desaparecer. Admirado pela ausência, perguntei por ele a um amigo comum, e soube que o C. estava doente, com cancro.

Para além de culto e letrado, o C. era um homem muito charmoso, um sedutor. Confesso que a primeira vez que o vi me senti um pouco intimidado: sou muito tímido e assustam-me sempre as pessoas um pouco transbordantes, atemorizam-me os egos inchados. Puro engano meu, como verifiquei posteriormente: o C., charmoso e sedutor, era uma pessoa amável, educadíssima, simpática, sem tiques ou poses, com uma disponibilidade para os outros muito rara, com um sentido de humor generoso e elegante. É fácil dizer bem das pessoas que já nos deixaram, são sempre excelentes, só têm qualidades. Mas o C. era um homem verdadeiramente extraordinário, o que se tornava perceptível mesmo num contacto breve e fugaz, como foi o que eu tive com ele. E se senti um profundo desânimo, e até uma certa revolta, pelo desperdício que a sua morte representou, também não deixei de me sentir muito reconfortado por ter tido o privilégio feliz de o ter conhecido.