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doida não e não
rosas
innersmile


Tenho estado a ler um livro fascinante, ou melhor sobre uma história fascinante, daquelas que a história acaba por resguardar. A autora do livro é Manuela Gonzaga, de quem eu li, há tempos, uma biografia sobre António Variações, intitulada Entre Braga e Nova Iorque.
‘Doida Não e Não’ não é tanto uma biografia, talvez mais um ensaio biográfico, pois restringe o seu escopo a um episódio (determinante, naturalmente) da vida da sua protagonista. Maria Adelaide Coelho da Cunha era filha do fundador do jornal Diário de Notícias e casada com o seu administrador, morava no palácio de São Vicente, e era, nos anos de 1910, uma das mais destacadas e distintas socialites da Lisboa da época.

Num dia de Novembro de 1918, Maria Adelaide desaparece sem deixar rastro, e quando todos julgavam que se tinha matado, dá escassas notícias pedindo à família que a considere morta e que não a procure. Tinha fugido com um chauffeur, antigo empregado da família, vinte e tal anos mais novo do que ela (que teria nesta ocasião já perto de 50 anos). O que se seguiu foi um processo implacável, cruel e muito eficaz, traçado pelo seu poderoso marido e levado a cabo com uma igualmente poderosa rede de cumplicidades, que visava considerar Maria Adelaide louca e inimputável, assim resgatando a honra da família abandonada e resguardando a fortuna familiar.

O livro de Manuela Gonzaga, para além de seguir este romanesco fascinante e a sua protagonista, insere-se ainda numa análise de género, contextualizando a história à luz da sociedade da época e do papel que nele desempenhava a mulher, associando o castigo que se abateu sobre Maria Adelaide à sua ousadia de quebrar, e logo por amor, o seu destino de mulher ilustre mas submissa.

A história de Maria Adelaide, o seu contributo para o conhecimento da época, e o suporte teórico com que a perspectiva a autora, Manuela Gonzaga, tornam este livro absolutamente imperdível.