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felizes juntos
rosas
innersmile
Fui jantar com os meus pais. Quando entrei lá em casa a minha mãe pousou a revista na mesa da sala e reparei que a Pública estava dobrada precisamente na última página da entrevista. Eu sabia que a edição da revista de hoje trazia a entrevista e estava com ganas de a lêr. Peguei-lhe e comecei a ler mesmo na última página, e fui lendo meio em diagonal de trás para a frente.

Depois interrompi para jantar, e peguei novamente na revista, vi que a capa era com eles, e li novamente a entrevista de fio a pavio.
Comoveu-me a entrevista, claro. Porque conheço o Paulo e o Zé, porque já estive com eles em ambientes de descontraída amizade, porque a entrevista organizou alguma da informação acerca deles, que eu fui sabendo através da leitura do seu blog, o Felizes Juntos. Porque a entrevista, feita com inteligência, evidencia algumas das coisas que são a marca das relações afectivas entre pessoas do mesmo sexo. A entrevista, por assim dizer, mostra-nos como é feita a normalidade de um ‘casamento’ que dos pontos de vista familiar, social e jurídico, ainda é muito feito de clandestinidade e, como eles referem, de omissões, mais do que de mentiras.

Mas o que mais me tocou na peça da revista foi a fotografia que abre o artigo, em que o Zé e o Paulo aparecem sentados, de costas para a camara, num banco. Comoveu-me porque quando observei a foto senti-lhe uma familiaridade, entre os dois, naturalmente, mas também em relação a mim. Vi essa foto como se estivesse olhando os seus rostos, como se eles estivessem voltados de frente. Por razões que nem sou bem capaz de precisar, essa fotografia define quase na perfeição o que eu sinto em relação a eles. É como que um convite a olhar na direcção em que eles olham.

Estava ainda a folhear a revista quando a minha mãe regressou à sala. Perguntei-lhe se ela a queria ler, e ela disse-me que não, que tinha tempo. Que apenas tinha lido uma entrevista muito interessante com um casal de homossexuais, a falarem de como era a sua vida em comum. E acrescentou, com aquela sagacidade que só as mães têm, que um deles só tinha pai e o outro tinha mãe e irmãos, e que tinha achado muito interessante a parte em que eles falam da família, de como se relacionam com os familiares.

Eu confesso que nesta altura estava-me a sentir a pessoa mais absurda do mundo, por não ter coragem de dizer à minha mãe que sou amigo do Zé e do Paulo e o quanto isso me estava a encher de orgulho.