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o verão de 77
rosas
innersmile
Num dia de Junho de 1977 (talvez no dia 12… ou no dia 20… não sei) apanhei um autocarro de carreira na madrugada da cidade de Mirandela, em Trás-os-montes, para vir para Lisboa ter com a minha família, os meus pais e o meu irmão. A viagem durou o dia todo e a chegada a Lisboa foi já ao fim da tarde. Quando o autocarro chegou à praça do Marquês de Pombal, o trânsito estava cortado porque havia uma manifestação política. Parou numa das ruas ali à volta do Marquês, não sei qual, e eu fui a um café tentar telefonar para casa, em vão, como eu já sabia, pois os meus pais e irmão deviam estar um pouco mais abaixo, à espera do autocarro. Nessa altura eu estava já a morrer de angústia de nunca mais ver a minha família na vida. Sentia, acho eu, que estava a ser vítima da mais cruel partida do destino: perder-me definitivamente da minha família precisamente no dia em que a ia reencontrar.

A manifestação acabou por descer do Marquês para a Avenida, alguém me foi chamar ao café onde eu ainda tentava desesperadamente telefonar não sei para quem, o autocarro veio para o ponto do términos da viagem, encostado ao Parque Eduardo VII, e eu chorei de alívio e emoção abraçado à minha mãe.

Esse dia foi o primeiro dia de um verão passado entre Lisboa e a Amadora, antes de, em Novembro, os meus pais arranjarem emprego em Coimbra e mudarmos para nos instalarmos definitivamente por cá. Entre esse dia de Junho e o início do ano lectivo, em meados de Outubro, quando comecei a frequentar as aulas no liceu nacional da Amadora, passei um verão muito solitário, sem conhecer ninguém, sem outros amigos que não fossem os amigos de Nampula que viviam ao pé de nós, na Reboleira, e que foram responsáveis por os meus pais se terem instalado na Amadora.

Entre tardes de passeio pela Baixa e pelo Chiado, e sessões de cinema numa sala de projecção que havia ao lado das piscinas do Algés e Dafundo (onde me lembro de ver um filme sobre a equipa de futebol uruguaia que se despenhou nos Andes e que ficou conhecida por os sobreviventes terem praticado canibalismo para conseguirem sobreviver, e ainda um filme documentário sobre os jogos olímpicos de Montreal, que tinham sido no ano anterior), devorei os livros que havia numa pequena biblioteca da parte de casa mobilada que os meus pais arrendaram na Rua Elias Garcia, perto da estação de comboios da Amadora (lembro-me de ter lido Felizmente Há Luar, de Luís de Sttau Monteiro, sem fazer a mais pálida ideia do que estava a ler), e ouvi discos, long plays, numa aparelhagem que o meu irmão comprou e que estava no aparador da sala de jantar.

E era precisamente aqui que este texto me queria trazer, aos discos que eu ouvi nesse verão de 1977, na parte de casa mobilada da Rua Elias Garcia que tinha, coisa que eu nunca tinha visto, estores que se afastavam da parede para deixar entrar luz protegendo dos raios solares. Que me lembre eu só tinha um disco, o Even In The Quietest Moments, dos Supertramp, que ganhei num concurso da revista Música & Som (a minha única extravagância consumista num tempo de vacas escanzeladas). Os outros meus discos estavam, juntamente com a aparelhagem dos meus pais, em trânsito de contentores de amigos que se dispuseram a trazer coisas da minha casa – os meus pais não puderam trazer mais do que a roupa do corpo. Mas lembro-me , do meu irmão, de ouvir muito três discos dos Kraftwerk, o Autobhan, o Radio Activity e o Trans Europe Express. Lembro-me do disco ‘Juntos e Ao Vivo’ de Caetano Veloso e Chico Buarque. E lembro-me de mais dois discos que ouvi muito na casa dos tais amigos que viviam na Reboleira: o Spanish Train and Other Stories, do Chris de Burgh, e o The Kick Inside, da Kate Bush. Dos discos dos Kraftwerk e do Caetano e Chico ao vivo, nunca me separei, nunca houve um período da minha vida mais ou menos prolongado que não os tenha ouvido. Da Kate Bush também nunca me afastei, e o Wuthering Heights é, ainda e sempre, uma das minhas canções preferidas. O Chris de Burgh e os Supertramp deixei de os ouvir há muitos muitos anos, por nenhuma razão especial, nem sequer o facto de me ter cansado ou de ter avançado. Pura e simplesmente deixei de ouvir.

Mas no fim de semana passado dediquei-me a ouvir, quase em loop, esses três discos: o Spanish Train, o Kick Inside e o Even in The Quietest Moments. E agora escrevi este texto que não é sobre outra coisa que não seja o fim de semana que passei a ouvir os discos que marcaram o verão de 1977, o verão dos meus quinze anos.