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o casamento alegre
rosas
innersmile


"Os homossexuais praticamente não têm passado, ou têm um passado continuamente obliterado pelas sucessivas vagas da perpétua maioria heterossexual. Esta maioria impõe em termos sociais um modelo de valorização e de organização das relações humanas que apaga quaisquer vestígios de memória da existência das referidas minorias. É por isso imperativo e precioso preservar a memória dos comportamentos homossexuais e o testemunho das suas alegrias, dores e realizações. Quantos irmãos e irmãs, primos e primas, tios e tias que «nunca casaram» - para empregar um velho eufemismo – não ficam ainda hoje soterrados no silêncio envergonhado de memórias familiares que se transmite de geração em geração."

"Um homossexual tem de abrir dentro e fora de si um espaço para poder ser. Esse espaço interior de construção de si mesmo e essa projecção de um mundo de possibilidade fora de si exigem-lhe recursos extraordinários. Enquanto os heterossexuais encontram um mundo pronto-a-vestir, os homossexuais têm de construir a estrada para poderem circular, essa via que lhes permita avançar na direcção do futuro. Esta ausência de perspectivação do futuro creio que é o maior problema com que se deparam os adolescentes que se descobrem com uma orientação sexual diversa da maioritária. E como podem falar livremente de homossexualidade num mundo social, familiar e religioso onde a homossexualidade era ainda em tempos muito recentes um tabu ou um assunto marcado com o ferrete da ignomínia? E, sobretudo, como falar disso no meio de desertos de intensa solidão afectiva? Como viver de escassa meia dúzia de carícias e de beijos trocados em noites que, para o mundo dos outros, nunca existiram?"


Raras vezes tenho visto posto com tanto rigor e clarividência alguns dos problemas mais profundos que se põem à condição homossexual. São apenas dois parágrafos (de tantos que me apetecia reproduzir aqui) do longo texto introdutório do mais recente livro do escritor José António Almeida, O CASAMENTO SEMPRE FOI GAY E NUNCA TRISTE (edições & etc). Para além deste texto o livro contém ainda uma série de doze poemas que poderíamos dizer estão colocados sob o signo de uma tripla condição de poeta, homossexual e católico, que o autor convoca como marca autoral do livro. Que termina com uma carta ao Expresso cuja publicação foi recusada com a mais patética (não chega a ser ridícula) das razões.

O livro, o segundo que José António Almeida publica na & etc num curto espaço de tempo, faz-me lembrar os opúsculos e as plaquetes que se publicavam antigamente, quando o acesso aos media era difícil quando não impossível, para defender publicamente determinadas causas ou posições. É de certo modo um folheto de combate, que pretende tomar pública a posição que o autor defende, enquanto escritor católico homossexual, no debate não tanto da admissibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas sobretudo da posição da igreja católica nesse debate.

Para que não se pense que o facto de este livro se aparentar a uma intervenção necessariamente política num debate sobre uma questão complexa, descura ou secundariza a qualidade dos versos de José António Almeida, aí fica um dos poemas do livro, AO ANOITECER.

"Sou um velho rato celibatário
- a lei não me permite casamento.

Outros encontram sem dificuldade
o universo pronto a vestir

logo de manhã, desde que nasceram.
Depois trajam todas as convenções

- que lhes assentam bem, do colarinho
às mangas, até parece que Deus

é um alfaiate por conta deles.
A nós, a melhor roupa fica mal

- em nenhuma loja vendem sapatos
que nos deixem ir noutra direcção,

nem anel que não faça propaganda
à ordem sempre «natural» do mundo."