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o nego leléu
rosas
innersmile
«De quem será esse velório lá longe lobrigado, lamentoso e lúgubre? Ora se aquele não é Nego Leléu sorridente no caixão, mais lorde que um visconde, mais guapo que um marquês, fato preto bem passado, botas tinindo de lustro, barbinha feita a capricho, carapinha escovadinha, mãos mui limpas cruzadas sobre o peito, camisa mais que cheirosa e engomada, sem cara nenhuma de morte! Se Nego Leléu morreu? Mas claro que morreu, ou não o teriam banhado, vestido e deitado ali, para ser enterrado na manhã seguinte. Morreu no meio da soneca do meio-dia e, como estava ficando cada dia mais menino, pensou que era um sonho. Foi encontrado pelos outros meninos, com quem tinha combinado sair para brincar de pelota, empinar arraia e jogar pião. Viram logo que estava morto, mas nenhum deles se assustou, porque ele tinha a expressão divertida, talvez matreira, certamente feliz.»

É um brevíssimo trecho do capítulo 12 de Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Acho que até agora foi o meu capítulo preferido, todo ele em volta de Nego Leléu e da sua morte. Se eu mandasse, este capítulo do livro era leitura obrigatória em todas as escolas. Não para analisar morfologicamente, para dividir as orações, para interpretar a semântica ou a sintaxe; nada disso, apenas pelo mero gozo de ler uma coisa muito bem escrita e pungente de humanidade. De tantas e diversas personagens que o livro tem, algumas delas fortíssimas de carácter e simbologia, o Nego Leléu é, até agora, a minha preferida. Por muitas razões, mas principalmente por ter tomado essa decisão de, quando começou a ficar velho, ser a única coisa que nunca tinha sido em toda a sua vida: menino.

Um dos aspectos admiráveis da escrita de João Ubaldo é ela conseguir ser, no mesmo passo, humorística e encantatória. O humor dá-nos a distância necessária em relação à narrativa para podermos olhá-la de um modo mais analítico, mais racional, enquanto épico que conta verdadeiramente a história de uma nação (ou melhor, de um povo, como o título reivindica); mas a maneira como a linguagem se torna mágica, encantatória, leva-nos para dentro da narrativa, permitindo-nos saborear, já não a história, mas a alma desse povo.