?

Log in

No account? Create an account

barreto na ler
rosas
innersmile
Confesso que fiquei um bocado incomodado com a frase que a edição da revista Ler de Março, escolheu para legendar a capa, e a entrevista, com António Barreto: "O 'Magalhães' é o maior assassino da leitura em Portugal". Apesar de ser um crítico (rigoroso e implacável, mas consequente) da actual governação, a frase parecia-me mais uma boutade esvaziada de significado do que propriamente uma crítica séria.

Claro que fui ler a entrevista, e claro que o conteúdo da entrevista é diferente. A começar na própria citação; o que Barreto afirma é que "O 'Magalhães', nesse sentido, é o maior assassino da leitura em Portugal", e o contexto em que é dita, como é óbvio, transforma a frase numa crítica séria, rigorosa e consequente à opção que o governo faz de investir tudo na literacia informática desprezando a noção de que o livro "é a melhor maneira de transmitir cultura".

De resto, a entrevista é uma delícia, como seria de esperar. Por mim, pelo menos. Gosto muito do António Barreto, quer dizer simpatizo com a sua forma livre de estar, com as suas análises sociológicas muito precisas e clarificantes acerca da maneira de sermos Portugal nestes últimos tempos. Mesmo quando é contraditório, ou pelo menos quando força um pouco as suas perspectivas, eu simpatizo com ele, porque acho que isso, no seu caso, se deve sempre a um princípio de liberdade. De liberdade intelectual, pelo menos. Também assumo que me seduz em António Barreto uma certa fleuma, muito anglo-saxónica, muito Oxbridge (mais Oxford que Cambridge, é verdade).

E gostei, na entrevista, de ler António Barreto falar sobre livros, sobre as suas leituras, sobre as suas memórias, sobre a relação com a escrita, sobre os seus projectos literários, ou a falta deles. Barreto é, como se percebe pelo que vai escrito acima, um defensor dos livros, chegando a afirmar que "o livro é eterno". Transcrevo este pedacinho delicioso, onde António Barreto responde à questão, feita com uma ponta de provocação, de saber se tem nostalgia do livro tradicional. Diz assim:

«Tenho, mas há uma coisa que lhe vou dizer: não é por causa do fetichismo do livro. Quase toda a gente diz isso: "Ah, o cheiro, a cola, a capa, o papel, a tinta de impressão". Tudo isso é muito engraçado mas não é isso que me faz correr. A nostalgia é por causa do tempo de meditação, do tempo de leitura, do tempo de saborear, do tempo de ponderar o que se está a ler, de parar, voltar, recomeçar. Ler implica ter uma vida para a leitura; que na sua vida tem de haver espaço para a leitura. Quando você já não tem espaço para a leitura, não é o cheiro que vai substituir o que quer que seja, não é o objecto físico que conta.»
Tags: