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simone e zélia duncan
rosas
innersmile
A música brasileira, aquilo a que geralmente se chama música popular brasileira, é sem sombra de dúvida uma das maiores expressões artísticas do nosso tempo. E ontem, no palco do CAE da Figueira da Foz isso ficou mais uma vez demonstrado no excelente concerto dado pela dupla Simone e Zélia Duncan. Foi dos melhores concertos a que assisti, uma daquelas ocasiões comoventes, especiais, mágicas, que não queremos que acabe jamais.

Três notinhas. A primeira para dizer que o reportório escolhido (registado em cd e em dvd, este em versão longa) é muito bom, e que há um lote de canções deste concerto, e estou a falar de temas que eu não conhecia, absolutamente fabuloso. Por exemplo, as canções A Companheira, de Luiz Tatit, e Na Próxima Encarnação, de Itamar Assumpção.

A outra nota vai para este encontro de duas vozes distintas, nos timbres, mas também nos estilos, nas cores, nas emoções, mas que se reúnem de forma perfeita, quer em termos harmónicos quer nos diálogos que vão estabelecendo uma com a outra. Nunca são duas cantoras que se juntam, é sempre uma dupla de vozes a funcionarem em harmonia perfeita.

Finalmente a postura em palco, o modo generoso como se dão, não tanto ao público (mas também) mas sobretudo ao próprio espectáculo, à noção de prestação e performance que é a essência do concerto. Convenhamos, a Simone é uma rainha, um nome maior do que si própria, mas que em palco está sempre ao serviço. Não é dizer que ela é simpática, que não tem tiques de arrogância, nada disso; é dizer que o cantor, que aquele que se entrega ali no palco, vem sempre antes e muito à frente da pessoa que a que dá corpo e voz. E isto é uma coisa que vemos acontecer com a generalidade dos músicos brasileiros, mesmo com aqueles que são monstros sagrados e que por isso podiam ter uma pose mais majestática.

Como disse, um dos trunfos desde concerto é a excelência das canções. Uma delas, precisamente a que dá o nome ao show, é AMIGO É CASA, da autoria de Capiba, a música, e Hermínio Bello de Carvalho, a letra. Cantada em encore a encerrar o concerto (que termina como começa, com as cantoras a cantar fora de cena), e apesar de não aparecer no alinhamento nem do cd nem do dvd, tem esta letra lindíssima (Saint, quem é o Hermínio Bello de Carvalho, é poeta?):

«Amigo é feito casa que se faz aos poucos e com paciência pra durar pra sempre mas é preciso ter muito tijolo e terra preparar reboco, construir tramelas usar a sapiência de um João-de-barro que constrói com arte a sua residência há que o alicerce seja muito resistente que às chuvas e aos ventos possa então a proteger.

E há que fincar muito jequitibá e vigas de jatobá e adubar o jardim e plantar muita flor toiceiras de resedás não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar que os cabelos brancos vão surgindo que nem mato na roceira que mal dá pra capinar e há que ver os pés de manacá cheios de sabiás sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis choro de imaginar!

Pra festa da cumieira não faltem os violões! Muito milho ardendo na fogueira e quentão farto em gengibre aquecendo os corações.

A casa é amizade construída aos poucos e que a gente quer com beira e tribeira com gelosia feita de matéria rara e altas platibandas, com portão bem largo que é pra se entrar sorrindo nas horas incertas sem fazer alarde, sem causar transtorno amigo que é amigo quando quer estar presente faz-se quase transparente sem deixar-se perceber amigo é pra ficar.

Se chegar, se achegar, se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha e oferece lugar pra dormir e comer amigo que é amigo não puxa tapete oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem quando não tem, finge que tem, faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão.»
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