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gran torino, the visitor
rosas
innersmile
O tempo (quase) todo que passei em casa no fim de semana, e foi bastante, foi a ler (progrido, em marcha lenta mas determinada e sobretudo muito envolvida, por essa saga gigantesca que é Viva O Povo Brasileiro, de João Ubaldo) e a ver filmes. Ou melhor, pedaços de filmes, pois estou a estender o modo de leitura aos filmes que vejo em casa: aos bocadinhos, quinze minutos agora, vinte mais daqui a bocadinho.

Assim acabei de ver o mais recente Clint Eastwood, Gran Torino, e mais uma vez me deixo arrebatar pelo cinema clássico e seco do mestre. Desta feita temos um regresso de Eastwood à frente das câmaras, dando corpo a um velho veterano da guerra da Coreia, defensor dos tradicionais (e reaccionários)valores americanos, a braços com a sua própria decadência e com a decadência dessa América que ele defendeu. É de certo modo uma redenção que Eastwood oferece a um tipo de personagens que lhe deu fama, tentando não propriamente justificar a violência ou uma justiça baseada num código moral pessoal, mas reclamando uma certa pureza e 'straight-forwardness' que, mais do que um código moral (veja-se a reacção de Walt em relação às tentativas do padre irlandês de o levar à confissão), preconiza um manual de sobrevivência com dignidade. Claro que estamos aqui a pisar terrenos politicamente movediços, mas aceitar isso, e tentar perceber o que faz correr o cinema de Eastwood, faz parte da proposta de ver e amar esse cinema.

Uma curiosidade: o filme passa-se no seio de uma comunidade hmong, originalmente proveniente do Laos, e constituída por pessoas que depois da revolução comunista, em 1975, tiveram de ser literalmente resgatadas (de campos de refugiados na Tailândia) por terem apoiado os EUA durante a guerra do Vietname. Um dos estados norte-americanos onde foram realojados muitos desses refugiados (de um total de quatro ou cinco milhões) foi o Wisconsin. Em Eau Claire, onde estive em 1998, havia uma comunidade enorme de hmongs, que viviam nos arredores da cidade, sobretudo da agricultura, descendo uma vez por semana à downtown onde vendiam os seus produtos numa feira semanal. Era uma comunidade empobrecida e com alguns problemas sociais, que de vez em quando faziam as primeiras páginas do Lieder-Telegram, o jornal local, quase sempre pelas piores razões. Foi interessante ver esta realidade que eu conhecia, tratada no filme de Eastwood, e de uma forma simpática e favorável, não direi à comunidade em si, mas em relação aos seus membros. A lembrar que o vírus do racismo, como da discriminação em geral, passa sempre por só conseguirmos ver a floresta, sem repararmos na individualidade das árvores que a compõem.

O outro filme que vi no fim de semana (sem contar com duas idas ao cinema, de que já falei) foi The Visitor, que tem a particularidade de nos trazer de volta o actor Richard Jenkins, o pai da família Fischer de Six Feet Under, que morria no primeiro episódio, e passava o restante da série a voltar para atormentar os seus filhos, sobretudo o Nate. Esta interpretação de Jenkins no filme realizado por Thomas McCarthy, valeu-lhe uma nomeação para o Oscar de melhor actor.

Trata-se de um filme muito interessante, que conta a história da amizade improvável entre um velho professor universitário, em estado de depressão por morte da mulher e insatisfação profissional, e um casal de emigrantes ilegais, ela senegalesa e ele sírio, apanhados na paranóia securitária pós 11 de Setembro. Este fundo político dá ao filme um tom desencantado, mas sobretudo, como se revela no final, de revolta perante a injustiça de uma das mais polémicas medidas políticas da administração norte-americana.

Por outro lado o facto de o filme recusar dar sempre uma dimensão heróica aos seus protagonistas, seguindo-os sobretudo na sua dimensão quotidiana, dá ao filme uma verosimilhança extraordinária, fazendo-nos acreditar deveras naquela história e naquelas personagens, o que, como é natural, aumenta a nossa disponibilidade e empatia em relação ao drama por elas vivido.
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