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a la carte
rosas
innersmile

O que verdadeiramente me apetece é transcrever para aqui páginas e páginas do livro Viva o Povo Brasileiro, do escritor, prémio Camões o ano passado, João Ubaldo Ribeiro. Vou a pouco mais de cinquenta páginas do livro, e já houve dois trechos absolutamente divinais, coisa de génio: uma explicação pormenorizada e científica da encarnação das alminhas, e um menú gourmet de todas as iguarias que o caboco Capiroba conseguiu preparar com as diversas partes de um padre (mesmo antes de concluir pela superioridade dos holandeses . Enfim, é sabido que o segredo da gastronomia passa muito pela qualidade dos ingredientes).

Quanto às almas, são sete ou oito páginas antológicas que, só para dar um cheirinho, começam assim: «O comportamento das almas inopinadamente desencarnadas, sobretudo quando muito jovens, é objecto de grande controvérsia e mesmo de versões diametralmente contraditórias, resultando que, em todo o assunto, não há um só ponto pacífico. Em Amoreiras, por exemplo, afirma-se que a conjunção especial dos pontos cardeais, dos equinócios, das linhas magnéticas, dos meridianos mentais, das alfridárias mais potentes, dos polos esótéricos, das correntes alquímico-filosofais, das atracções da lua e dos astros fixos e errantes e de mais centenas de forças arcanas - tudo isso faz com que, por lá, as almas dos mortos se recusem a sair, continuando a trafegar livremente entre os vivos, interferindo na vida de todo dia e às vezes fazendo um sem-número de exigências.»

Não sei como vou atacar as quase oitocentas e cinquenta páginas do livro (coragem, já só faltam oitocentas...), para mais com a minha velocidade de leitura que é a de um caracol ensonado. Mas para já esta leitura está a ser uma aventura exaltante, encantatória e sobretudo muitíssimo divertida. Gracias, Saint, mais uma que te devo.

E pronto, cá vai a carta do caboco gourmet, para arrepio dos mais sensíveis e deleite dos gulosos... por literatura.

«O caboco Capiroba então pegou um porrete que vinha alisando desde que sumira, arrodeou por trás e achatou a cabeça do padre com precisão, logo cortando um pouco da carne de primeira para churrasquear na brasa. O resto ele charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu num varal para pegar sol. Dos miúdos prapararam ensopado, muqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de tutano, passarinha no dendê, mocotó rico com todas as partes fortes do peritônio e sanguinho talhado, costela assada, culhõezinhos na brasa, rinzinho amolecido no leite de coco mais mamão, iscas de fígado no toucinho do lombo, faceira e orelhas bem salgadinhas, meninico bem dormidinho para pegar sabor, e um pouco de linguiça, aproveitando as tripas bem lavadas no limão, de acordo com as receitas que aquele mesmo padre havia ensinado às mulheres da Redução, a fim de que preparassem algumas para ele. Também usaram umas sobras para isca de siri e de peixinho de rio, sendo os boles e as partes moles o que melhor serve, como o caboco logo descobriu.»