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o leitor
rosas
innersmile
Para mim a discussão entre filmes e os livros que lhes estiveram na origem (reacendida entre nós, há pouco tempo, a propósito do filme Blindness, de Fernando Meirelles, e o Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago) é totalmente inútil e desinteressante. Livros e filmes pertencem a universos diferentes, utilizam códigos e linguagens diversas, e sobretudo tocam-nos de modos absolutamente distintos, apelando a emoções e racionalidades diferentes. Não faz sentido, por isso, analisar um filme a partir do ponto de vista do livro que lhe esteve na origem, ou vice-versa, se for esse o caso.

Isto para, muito contraditoriamente, dizer que a relativa desilusão que constituiu, para mim, o visionamento de O Leitor, o filme realizado por Stephen Daltry (autor de dois excelentes filmes, Billy Elliot e The Hours), teve sobretudo a ver com as expectativas com que eu vim para o filme, tendo gostado imenso do livro de Bernhard Schlink, que li há dois ou três meses, e que foi uma daquelas leituras reveladoras e transformadoras.

E pensando bem acho que as minhas reservas em relação ao filme têm a ver com a personagem de Hanna Schmidtz e com o modo como a Kate Winslet lhe dá corpo. Acho que o filme nunca consegue transmitir bem o mistério de Hanna, transformando num truque narrativo (a reviravolta que tem a ver com o seu segredo) aquilo que é o verdadeiro motor da sua vida, no sentido de a condicionar por completo.

Além disso acho que o livro levantava muitas questões (a moral e a verdade, a vergonha, a força do passado, o poder do amor, a culpa) que no filme, se calhar inevitavelmente, se diluem um pouco no romanesco.

Em suma, o que o filme veio fazer foi estragar um pouco da magia que o livro tinha, dando formas e rostos a coisas que estavam melhor servidas pela minha capacidade de criar um imaginário para o livro de Schlink. E pronto, agora que já fui completamente contraditório, posso regressar à minha opinião habitual de que os filmes não devem nada ser vistos à luz dos livros que lhes deram origem.