February 3rd, 2009

rosas

revolutionary road

É inevitável pensar em American Beauty a propósito do mais recente filme de Sam Mendes, Revolutionary Road, já que ambos se dedicam a lançar um olhar à neurose do subúrbio, como uma espécie de shangri-la onde a média e alta burguesia atinge o zénite do tédio e começa um inexorável e miserável processo de decadência. Mas enquanto Beleza Americana tinha como que uma camada onírica onde Lester, o personagem de Kevin Spacey, procurava desfazer a sua abjecção em dignidade (mas não tanto ‘com’ dignidade), em Revolutionary Road tudo se passa com a crueza de um episódio da national geographic. Um episódio, digamos assim, em que se analisasse a capacidade auto-destruidora dos mamíferos, incendiada por um impulso de conformismo e desassossego. ‘Hopeless emptiness’, chama-lhe a personagem de John Givings.

É evidente que o filme se apoia muito no embate entre Kate Winslet e Leonardo Di Caprio, mas sobretudo num aspecto que poderia constituir uma fragilidade do filme mas que para mim é o seu principal motivo de interesse: o modo teatral como todo o filme se constrói à volta e em volta deste duo e do seu duelo. Revolutionary Road quase se poderia aproximar de uma qualquer espécie de teatro filmado, se a sua dinâmica não fosse tão própria do cinema comercial. Mas é um ponto a favor do filme escolher encenar o duelo de Kate e Leo mais como uma peça de teatro do que como uma novela televisiva.

Sam Mendes pode não fazer os melhores filmes (quanta da eficácia de American Beauty não se deveria sobretudo ao Alan Ball, sobretudo agora que vamos ficando mais familiarizados com a escrita televisiva de Ball), mas faz algum do cinema mais estimulante e desafiador que vai passando pelas salas dos centros comerciais.