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rosas
innersmile
Apesar de ter conta no Twitter já há uns meses, a verdade é que não acho muita piada àquilo. E então agora que está na moda e está lá tudo, ainda se torna, na minha opinião, menos interessante, porque aumentou enormemente a quantidade de ruído, ou seja, de informação que passa pelo nosso ecrã sem despertar qualquer reacção, ou então despertando uma reacção muito inconsequente.

Na origem, penso que o Twitter deveria ser uma plataforma de contactos, através de entradas curtas, máximo de 140 caracteres, permitindo enviar entradas mesmo sem ter um computador, criando uma rede de amigos que mantivéssemos actualizados sobre o que estamos a fazer. Na prática, parece-me que o Twitter se transformou sobretudo numa espécie de chat room gigante e comunal, sendo ainda aproveitado por algumas pessoas para divulgarem aquilo que vão produzindo noutros meios, como os blogs, através de um sistema de feeds.

A estrutura muito fácil e leve do Twitter, o imediatismo das entradas e das respostas, e principalmente a não reciprocidade das ligações entre as pessoas, em que posso escolher livremente aquelas pessoas cujas entradas quero seguir, mas não controlo quem segue as minhas, tornaram-no num meio muito popular, em que o sucesso é medido não pelo número de pessoas que respondem ao que eu mostro (por exemplo através de um sistema de comentários, ou de visitas, como nos blogs), mas pelo número de entradas que coloco e pelo número de pessoas que seguem o que escrevo.

Quando criei a conta no Twitter e comecei a seguir as entradas de alguns participantes, aborrecia-me o tom demasiado geek da coisa. Como em todo este tipo de novidades os primeiros utilizadores eram os cromos da informática e confesso que a maior parte do tempo eu nem sabia do que estavam a falar. Depois houve ali um momento (na verdade foi pouco mais do que um fim de semana) em que consegui estabelecer alguma interactividade com algumas pessoas e achei alguma piada (apesar de nunca ter sentido o Twitter como uma coisa viciante). Entretanto o número de utilizadores, sobretudo portugueses, aumentou e voltei a desinteressar-me do Twitter, sobretudo porque, como já afirmei, o excesso de ruído me impede de seleccionar coisas interessantes para ler, e porque acho que a maior parte da interacção é inconsequente, ou seja esgota-se num impulso e na reacção imediata.

Neste momento apenas leio com atenção o que escrevem dois ou três twitters. Um deles, um dos primeiros que segui, é o do Stephen Fry, que tem um poder de síntese fabuloso e a capacidade de criar um verdadeiro discurso com o recurso a um inglês rico em frases e expressões idiomáticas e cheias de sentido de humor; infelizmente, ultimamente o twitter do SF começa a perder-se demasiado em respostas a seguidores. O do Brian Eno, que debita metodicamenete uma entrada por dia, muito na onda das suas estratégias oblíquas.

Mas neste momento o meu Twitter preferido é o do escritor Paulinho Assunção, autor do blog Cidades Escritas (que também é o nome da sua página no Twitter). Tem entradas admirávies, pelo poder de síntese, pelo uso irrepreensível do português, pela capacidade de criar universos poéticos e narrativos com frases de meia dúzia de palavras. O que me levou a escrever esta entrada foi o facto de hoje de manhã ter ligado o twitter e visto esta sequência admirável de micro-textos que o Paulinho Assunção pôs e que, na minha opinião, consubstanciam aquilo que o Twitter, como forma de expressão, poderia ser (pela ordem em que apareceram):

Os poetas enxergam melhor os pontos F e H, embora sejam praticamente cegos para os pontos L e M.

Os romancistas vêem com mais clareza os pontos N e Q, mesmo em dia de névoa, mesmo em dia de brumas.

Os arrogantes sempre acham que podem ver todos os pontos, de A a Z.

Hoje eu olhei o ponto R e percebi que havia certo tumulto a caminho do ponto S.

Os que fazem a travessia do ponto A para o ponto B costumam ver, ao longe, os pontos Y e Z, ao sul.