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É-me sempre mais difícil falar de um filme (ou de um livro, ou seja do que for) quando ele me tocou de muitas maneiras e me comoveu. É mais fácil quando conseguimos alguma distância, que nos permite uma aproximação mais crítica e racional. É um pouco o que me está a acontecer em relação a Milk, o filme de Gus Van Sant, em que Sean Penn dá corpo à figura de Harvey Milk, o primeiro político gay eleito nos EUA, símbolo do bairro de Castro, em São Francisco, como meca da liberdade e da plena cidadania dos homossexuais e lésbicas. Talvez começar por dizer que se trata de um filme inspirador e que tem um cunho marcadamente político, não se esgotando, mas gerindo com eficácia, no melodrama biográfico.

Sendo evidente que se trata de uma bio-pic, é igualmente, ou sobretudo, um filme sobre o activismo gay, contendo uma clara mensagem (política) de que apenas a visibilidade pode trazer a conquista de direitos civis. Gostei que o filme, ainda que não negando reconhecer a Milk o estatuto de herói e mártir do activismo gay, tenha tido a preocupação de contextualizar sempre essa dupla condição, não tanto na perspectiva da biografia de Harvey Milk, mas sobretudo no tempo e no lugar em que aconteceram.

Mas como disse acima, o filme não se esgota no melodrama, mas também não o elimina de todo, e muita da sua eficácia vem precisamente do modo como ele gere aquilo a que poderemos chamar a vida privada de Harvey Milk, até no sentido em que muita dessa esfera privada se sobrepunha, ou deixava sobrepor, pelo activismo público. E, na minha opinião, é nessa camada mais íntima que a interpretação do Sean Penn é magistral porque consegue dar sempre profundidade e espessura à personagem que representa. E acreditarmos no Harvey Milk de Sean Penn, percebermos a sua psicologia e aderirmos ao seu drive emocional, é essencial para recebermos e aceitarmos a sua mensagem transformadora. É esta a estratégia narrativa do filme, e, na minha opinião, é desenvolvida com enormes inteligência e eficácia.

Vemos muitos filmes e de tempos a tempos há filmes que nos marcam, por uma ou outra razão. Mas mais raro é haver filmes que nos transformam, que se inscrevem, e que escrevem, a nossa maneira de olhar e estar no mundo. Milk é, em relação a mim, um desses filmes.
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