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muñoz, vicky cristina e barcelona, os produtores
rosas
innersmile
Estou a ouvir o concerto de Colónia do Keith Jarrett (que o Last-fm não apanha no scrobbling) e a beber um chá quente para sacudir a intempérie. Cheguei há bocadinho a casa, depois de ter ido ao Porto basicamente para bisar a exposição retrospectiva sobre Juan Muñoz, na fundação de Serralves.

Volto a experimentar o impacto que os trabalhos de Muñoz têm em mim, e vejo as peças com o espanto e o entusiasmo da primeira vez. Talvez com mais, porque afinei a companhia e com a C. posso teorizar à vontade e dizer disparates. Desta vez segui a exposição com o guia-áudio e confirmei as impressões que tive quando vi a exposição pela primeira vez e que estão, creio, na base da minha adesão: uma qualidade arquitectónica, uma maneira de usar a arte para criar uma tensão entre o espaço e o espectador. As figuras de Many Times criam um efeito surpreendente, que parece ser acolhedor, como se nos convidassem à conversa, mas da qual acabamos por nos sentir excluídos. Mas há uma qualidade intrínseca em cada uma das figuras, que, quando juntas parecem embrenhadas em animados e entabulados convívios, mas que quando estão isoladas parece conterem um segredo qualquer que lhes permite ver o lado mais maravilhado do mundo. Acho que The Wasteland é a minha peça preferida, sobretudo por causa do piso que me convida à vertigem e ao voo. Tenho uma vontade quase irresistível de entrar na sala e sobrevoar o piso até à pequena figura sentada na parede, em modo loop, again & again. Seated Figures With Five Drums tinha-me fascinado mas tinha passado demasiado depressa por ela para desfrutar desse fascínio. Um fascínio um pouco doloroso, note-se, já que parece haver nessa peça (mas haverá em todas?) uma pulsão dramática, ou mesmo uma tragédia à espera de acontecer, ou mesmo que já aconteceu noutro lugar mas ainda não chegou à sala. Como se fosse uma serenidade que é a negação da serenidade.

Fomos almoçar francesinhas (e sangria) e depois fomos ver o Vicky Cristina Barcelona. Talvez fosse porque eu estava bem disposto (apesar de ensonado, à conta da sangria) mas o filme divertiu-me muito, paesar de ser mais triste do que alegre. Mas é uma tristeza alegre, nada lamechas, sombria, até um pouco desoladora, mas leve e aérea. O Woody Allen, digam lá o que disserem, continua em forma, e a dar-nos filmes que nos espevitam e divertem. Entretenimento para adultos, numa época que essa denominação parece totalmente desadequada aos filmes que passam nos multiplexes dos centros comerciais. A banda sonora é maravilhosa, e eu quero comprá-la (é a segunda BD de um filme de WA que me apetece ter, depois de Match Point). E o filme não sendo propriamente uma ode a Barcelona, é um filme pensado para aquela cidade, mesmo quando tropeça nos lugares comuns (e não, não estou a pensar na Sagrada Família ou na Casa Millá).

Mas o bom do fim de semana já tinha começado ontem à noite, quando fui ao TAGV ver Os Produtores, uma versão portuguesa do famoso musical de Mel Brooks, o famoso filme que se tornou um musical que se tornou um filme. Gostei muito de ver o Manuel Marques, sobretudo quando ele se cola ao registo do Mathew Broderick no filme. E gostei do tamanho da banda em palco, e dos quadros com o corpo de baile todo em cena.
E acho que a versão portuguesa da peça preserva muito das piadas e do tipo de humor do Mel Brooks, mesmo quando esse humor nos é um pouco mais estranho. Aliás, ontem estava a ver a peça, e a divertir-me à grande, e a pensar que de facto não fazia muito sentido, aqui há uns anos, adaptar a versões portuguesas os grandes musicais do West End e da Broadway, porque as referências, em termos de cultura popular, são tão distantes das nossas. Agora que parece estar na moda adaptar os musicais, isso de certa forma significa que a nossa cultura popular perdeu idiossincrasia, ficou mais plana e indistinta, muito por efeito da televisão, e sobretudo da forma como as gerações mais recentes recebem toda a cultura popular de raiz anglo-saxónica.

O chá já acabou, o Keith Jarrett ainda não, e eu vou ali para o sofá, para a leitura e para a sornice. Estou a ler, e quase a terminar, um livro muito divertido, mas fica para outra vez falar nele.