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1808
rosas
innersmile


Desde que li Era No Tempo do Rei, de Ruy Castro, que tinha vontade de ler mais sobre a transferência da corte de D. João VI para o Brasil, em 1808. Precisamente 1808 é o título do livro da autoria do jornalista brasileiro Laurentino Gomes, que foi best-seller no Brasil e em Portugal, e que foi o livro que de certa maneira marcou o segundo centenário daquele acontecimento histórico, tão determinante na história dos dois países. Sobretudo para o Brasil, pois os treze anos de estadia da corte no Rio de Janeiro propiciaram à colónia as condições necessárias à sua independência, consagrada em 1822, logo no ano a seguir ao do regresso de D. João VI a Lisboa.

É de referir que não se trata de um livro de ensaio historiográfico, mas de uma obra de divulgação popular, uma espécie de reportagem alargada em mais de 300 páginas, que contextualiza os acontecimentos, analisa-os, e explicita-lhes as consequências. Escrito na linguagem ligeira própria do jornalismo, muito suportado em referências bibliográficas (as notas estão condensadas no fim, para conforto do leitor não demasiadamente preocupado com a genealogia das fontes), vai doseando com equilíbrio a narrativa dos acontecimentos, os perfis dos protagonistas, grandes ou pequenos (sendo que muitos deles foram simultaneamente protagonistas e testemunhas que deixaram relatos sobre a época), e as anedotas e apontamentos mais ou menos picarescos do quotidiano.

O ângulo do livro é demasiado aberto para estar aqui a destacar aspectos concretos, mas vale a pena referir duas ou três coisas. A primeira é que me fez muita impressão, logo no início do livro, a descrição da vida política, económica, cultural e social do Portugal do início do século XIX, por ser tão parecida, nos seus atavismos e mediocridades, com o Portugal de hoje. Desanima confrontarmo-nos com a profundidade da doença, porque nos faz descrer mais de que algum dia consigamos estar no mundo (e na vida) de outra maneira.

Outro aspecto que me impressionou, apesar de ser um pouco lateral em relação ao escopo da obra, foi o papel da escravatura na formação do Brasil. Assim como a descrição do Portugal dos séculos XVIII e XIX explica muito do que somos hoje, também esta génese do Brasil num sistema que tinha por base de sustentação económica e social a escravatura, ajuda a compreender algumas das profundas feridas e contradições que dilaceram o Brasil do século XXI.

Um dos inúmeros apontamentos da pequena história em que 1808 é pródigo, conta-nos como D, João VI trazia sempre os bolsos da casaca cheios com franguinhos assados e desossados, que ia trincando quer nos seus passeios pelo Rio de Janeiro quer durante as sessões diárias do beija-mão (que, aprendi no livro, ao contrário de serem uma manifestação da superioridade real, eram antes uma possibilidade que era dada a qualquer pessoa de se aproximar e falar a sua majestade, expondo-lhe problemas ou necessidades).
Lembrei-me logo de D. João VI e A Mulata, um poema (cuja autoria apenas consigo identificar com dois nomes, A. Rodrigues e R. Calado) que me lembro de ouvir pela voz do João Villaret, nos discos do actor que habitaram a minha infância.

«Quando a corte de D. João VI
Chegou a Paquetá
Tudo servia de pretexto
P’ra censurar, p’ra criticar
Certa mulata que havia lá

Diziam que ela era um perigo
Que ela era uma tentação
E que um marquês de nome antigo
Desdenhava o rei, não cumpria a lei,
P’ra ser só dela o cortesão.

Mas quando alguém o censurasse
Pedindo ao rei que a exilasse
Pelo mal que fazia
D. João VI trincava uma coxinha
De frango ou de galinha
E sempre respondia
Já lhes disse que aqui em Paquetá
Eu sigo a lei da corte de Lisboa
E não me digam que a mulata é má
Porque eu decreto que a mulata é boa

Certa noite muito escura
A moça se assustou
Vendo surgir uma figura
Gorda, a ofegar
Que sem falar
Nos gordos braços logo a apertou
Ela sentiu-se muito aflita
Como dizer que não
Até na treva era bonita
E lá fez de conta, que ficava tonta
Sem saber que era o seu D. João.

Mas quando alguém o censurasse
Pedindo ao rei que a exilasse
Pelo mal que fazia
D. João VI trincava uma coxinha
De frango ou de galinha
E sempre respondia
Já lhes disse que aqui em Paquetá
Eu sigo a lei da corte de Lisboa
E não me digam que a mulata é má
Porque eu já sei como a mulata é boa.»