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vida de horácio
rosas
innersmile


«A caminho do Alentejo, através da janela do comboio, Horácio pensava no número incalculável de todos os seres humanos mortos desde Eva e Adão e no reino quase ilimitado da morte e via num rápido desfile, como o da copa das árvores, as caras dos poetas e filósofos falecidos e também as dos amantes defuntos e perguntava-se, ao longo da imensidão da planície mosqueada de arvoredo, se a morte não seria infinitamente maior do que a vida e se este mundo, que nos parece tudo, não seria ao fim e ao cabo um flutuante nada e, ao contrário, a morte, que se assemelha ao nada, o contorno de tudo, ou pelo menos algo oceanicamente vasto e a perder de vista, a que talvez faltasse apenas uma pequena parcela: o comboio em que ele, Horácio, viajava pelo universo.»

- José António Almeida, A VIDA DE HORÁCIO (& etc)

Acabei de ler há minutos este que é o primeiro livro em prosa, que, como nos recorda o autor nos posfácio, não é o contrário da poesia, de José António Almeida, autor de um dos meus livros de poemas predilectos, O Rei de Sodoma e Algumas Palavras em Sua Homenagem. Como o título indica, trata-se de uma narrativa sobre a vida de um personagem, Horácio, ou mais particularmente sobre a incursão que o herói decidiu fazer, em obediência a uma ideia fixa, à "outra metade do céu" a fim de conhecer sexualmente a mulher. Trata-se de um livro divertidíssimo, com um humor que por vezes é sarcástico, mas é sempre muito impiedoso em relação ao próprio Horácio, e à metade do universo que ele representa. A advertência do autor, no posfácio já referido, contra a tentação de leituras biográficas, claro que só aguça mais o apetite e a curiosidade. Mas esse humor nunca esconde uma latência lírica da narrativa e, parece-me, mais do que na linguagem, é nesta quase desarmada entrega à vertigem dos sentimentos que se consubstancia o tal princípio de que a prosa não é o contrário da poesia.