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lígia
rosas
innersmile
Como acontece com as obras de todos os grandes compositores (com a obra de todos os grandes artistas), também com os grandes criadores da música popular estamos sempre a descobrir novas canções ou, ainda mais subtil, novas emoções nas canções que sempre conhecemos.

Mesmo quando temos a pretensão, e eu não a tenho, longe disso, de conhecer razoavelmente a obra de António Carlos Jobim, estamos sempre a ser surpreendidos, as descobertas e as aventuras são inesgotáveis.

Tenho estado a ouvir muito um cd com uma gravação ao vivo de Caetano Veloso e Roberto Carlos, em homenagem aos 50 anos da bossa nova, a interpretarem canções de Tom Jobim. Eu tenho uma paixão avassaladora pelo Caetano e gosto muito do Roberto, que é um grande cantor, mesmo quando anda ali no fio que separa a música popular da música brega (ou mesmo pimba). Uma das coisas que aprendi com a música popular brasileira foi precisamente que parte da sua riqueza também vem da sua capacidade de se misturar, da intercomunicabilidade das coisas e dos nomes que à partida pareciam estar em pontos antagónicos. Ouvir sem preconceito e não ter medo de gostar. Além disso, a amizade entre Caetano e Roberto vem de longe, e uma das mais belas canções que Caetano canta (nomeadamente no álbum Circuladô Vivo), Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, foi escrita em sua homenagem por Roberto, quando Caetano estava exilado em Londres, no início dos anos 70.

Quanto ao cd, ele está mais ou menos dividido a meio, primeiro Caetano depois Roberto, e a abrir e fechar dois pares de duetos. Naturalmente prefiro a metade de Caetano (com acompanhamento onde pontifica o piano de Daniel Jobim), onde se descobre a faceta de crooner de Caetano, mas um crooner mais lírico do que sentimental, sempre à procura dos lugares que as canções podem ocupar na sua voz e sobretudo no seu canto.

Mas foi na metade Roberto do disco que desta vez fui apanhado de surpresa. A certa altura ouve-se a voz do próprio Tom Jobim a cantar um dos seus maiores êxitos, Lígia, extraído precisamente de um dos especiais televisivos de Roberto Carlos. Já tinha ouvido esta canção dezenas de vezes, mesmo neste cd, que já ando a ouvir no carro há uns dias. Mas de repente há qualquer coisa que nos toca, que nos agarra e arrasta para dentro da canção. E se a música de Tom Jobim é sempre mágica e arrebatadora, desta vez o que me conquistou foram as palavras. Assim:

Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba não vou a Ipanema
Não gosto de chuva nem gosto de sol

E quando eu lhe telefonei, desliguei foi engano
O seu nome não sei
Esqueci no piano as bobagens de amor
Que eu iria dizer, não… Lígia Lígia

Eu nunca quis tê-la ao meu lado
Num fim de semana
Um chope gelado em Copacabana
Andar pela praia até o Leblon

E quando eu me apaixonei
Não passou de ilusão, o seu nome rasguei
Fiz um samba canção das mentiras de amor
Que aprendi com você
É… Lígia Lígia


A letra continua mas o essencial está dito. Um admirável poema de Chico Buarque, a que a música de Tom dá um tom (trocadilho semi-intencional) quase impressionista, e que faz derramar sobre o Rio de Janeiro, sobre a memória verdadeira ou inventada que guardamos do Rio, um manto melancólico, como a luz cinzenta e húmida das ruas quando mal acabou de chover.