January 4th, 2009

rosas

muñoz, caos calmo e body of lies

E bom, para abrir as hostilidades do ano novo, mas sobretudo para me encontrar com uma grande amiga que vive longe, fui ontem ao Porto.
O encontro foi marcado em Serralves, para ver a exposição retrospectiva dedicada a Juan Muñoz, e não havia maneira melhor e mais impressiva de começar o ano. Apenas conhecia de Muñoz dois conjuntos escultóricos, um no Jardim da Cordoaria, no Porto (‘Treze a Rir Uns dos Outros’, que creio ter sido o derradeiro trabalho do artista, e que segundo li algures, se encontra vandalizado e em muito mau estado, o que deveria constituir crime, se não para os autores pelo menos para as autoridades que têm obrigação de velar pelo bom estado das obras de arte públicas), e outro, Una Habitació On Sempre Plou, na praia da Barceloneta, em Barcelona.
Esta retrospectiva em Serralves foi das exposições que mais impacto me causaram. Beneficiei de a ver quando o museu ainda estava com relativamente pouco público, o que proporcionou a experiência do confronto com os trabalhos e o espaço, que julgo serem dois aspectos muito importantes da obra de Muñoz. Mais do que a escultura, a impressão mais forte que as obras de Muñoz me causaram foi de estarmos diante de uma verdadeira arquitectura, uma forma de ocupar o espaço e de o transformar numa aventura de humanidade. As suas obras criam uma tensão muito grande, particularmente nítida em Many Times, a peça que reúne 100 figuras humanas em poses de interacção, e sobretudo em The Wasteland, mas de um modo geral em todas as obras, pois, como disse, a obra de Muñoz vive desse modo como organiza o espaço à sua volta e como isso interfere connosco. Não é uma arte que se vê, mas sim que se experimenta, que verdadeiramente se vive.
Não há muitos momentos em que temos a sensação de que estamos a ser transformados, e isso em relação às artes plásticas acontece-me muito raramente, pois é uma área em sou profundamente ignorante. Mas conhecer esta exposição retrospectiva foi dos momentos mais intensos e transformadores que vivi.

A seguir a Serralves, zarpámos para o Arrábida, para ver filmes. Talvez porque a exposição de Juan Muñoz me tenha impressionado tanto, os dois filmes que vi não me entusiasmaram por aí além.

No entanto, gostei muito de ver Caos Calmo, do italiano Antonio Luigi Grimaldi, com argumento e interpretação de Nani Moretti. É impossível ficarmos imunes ao factor Moretti, e em alguns momentos do filme, os melhores, temos mesmo a sensação de estar a assistir a um filme do realizador de Caro Diario, Palombella Rossa ou La Stanza del Figlio, com o qual tem inegáveis semelhanças, mas que se ficam sobretudo pelo tema. Ao filme de Grimaldi falta a subtileza do filme de Moretti, e sobretudo a forma genial como o filme de Moretti conseguia captar esse momento de extrema fragilidade que é o luto.
Mas dizer que ao filme falta a delicadeza de La Stanza, não significa que o filme de Grimaldi é desastrado ou excessivo. Pelo contrário, é um filme bem construído, que consegue equilibrar bem o melodrama e uma reflexão sobre o momento do cinema em Itália, e que consegue, tratando de um tema pesado, ter apontamentos de humor e de alegria, conseguindo, parece-me, uma comunicação eficaz e empática com o espectador.

Body of Lies, do Ridley Scott, me deu um bocado de seca, apesar da bem urdida trama, do tema político, e da presença de dois grandes actores, o Russell Crowe e o cada vez melhor Leonardo DiCaprio. Acho que o filme não convenceu sobretudo como thriller, que achei pouco eficaz, e que é de tal modo barulhento que temos de fazer um esforço significativo para conseguir perceber a mensagem política que constitui, aparentemente, a razão de ser do filme.