?

Log in

No account? Create an account

who's playin' for keeps
rosas
innersmile
Hoje de manhã, num intervalo de descompressão durante uma aborrecida reunião de trabalho, alguém falou numa canção dos Commitments, um grupo irlandês de música soul que foi criado para um filme musical, com o mesmo nome, do Alan Parker. Por uma daquelas associações que parecem repousar num mecanismo puramente cerebral, lembrei-me antes de uma canção da LeAnn Rimes, também intitulada Commitment, que eu ouvia nas estações de rádio de música country quando, dez anos atrás, dava os meus passeios pelas estradas dos estados do Wisconsin e do Minnesota ao volante do Pontiac Sunfire vermelho. Eu sei que a canção é aquele country muito comercialão de Nashville, a descair para o pimba, mas não há nada como conduzir pelas intermináveis auto-estradas americanas, rodeadas de uma paisagem verde sem limite ou fim visível, em dias solares de primavera ao som dessas canções. Passei o dia com a canção a roer-me a cabeça, ansioso por chegar a casa e poder ouvi-la.

Às oito da noite, preparava-me para sair de casa para ir ao jantar de Natal do meu serviço, quando recebi por sms o mais inesperado convite para jantar. E não era, pelo estilo do texto, um mero convite para jantar, mas sim um convite para jantar. Um príncipe, daqueles que prendem o nosso olhar e escondem o nosso suspiro, convidava um velho sapo para jantar. Inesperado por isso, mas inesperado porque nunca houve o mais pequeno sinal, antes pelo contrário, apesar de haver uns frágeis e muito ambíguos sinais captados pelo radar. Fiquei tão perturbado. Acho que corei, apesar de estar sozinho em casa. Até pensei que o convite me tivesse vindo parar ao telemóvel por engano. Liguei-lhe e a conversa foi um pouco estranha, muito apressada, comigo a desculpar-me com o jantar do serviço.

É nestas alturas que me sinto como no poema de Drummond, totalmente gauche na vida. Escapam-me completamente as subtilezas deste tráfego das intenções mais ou menos insinuadas e dissimuladas. Passei a noite a consumir-me com a dúvida. Era um simples convite para jantar ou era um convite para jantar? Caramba, porque é que alguém que simpática e amigavelmente não parece olhar para mim duas vezes me convida numa noite desta época de azáfamas e correrias, de famílias e compromissos, de centros comerciais e lares aconchegados, a pretexto de solidão e noites frias? Estou a ver mais do que vinha escrito no texto ou estou a ver menos?

«Commitment, Someone who'll go the distance, I need somebody with staying power, Who'll make me go weak in the knees, Commitment, And everything that goes with it, I need honor and love in my life from somebody, Who's playin' for keeps»