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reininho e cazuza
rosas
innersmile
Nestes últimos dias tenho ouvido muito o disco de Rui Reininho, Companhia das Índias, o seu primeiro a solo, ou melhor, sem os GNR. O Reininho é um daqueles tipos de quem se gosta ou se detesta, e eu faço parte do contingente dos fãs. Apesar de consentir que ele não tem grande voz, a verdade é que sabe usar a que tem, tendo encontrado um registo feliz, porque assume uma certa fragilidade que dá à sua prestação um toquezinho de drama, de cinema, que serve às mil maravilhas a música que faz. E depois é um letrista superior, que brinca com a língua portuguesa de uma forma criativa que é simultaneamente poética e pop.

Neste disco Reininho liga-se a uma série de músicos de uma geração mais jovem do que a sua, o que veio trazer um novo fôlego à música que faz. Os GNR mantiveram sempre a capacidade de fazer boas canções, mas têm passado por fases de crise criativa que têm tornado os albúns mais recentes pouco interessantes. Por outro lado, a Armando Teixeira, o produtor e director musical deste projecto, também fez muito bem esta associação com Reininho, porque veio trazer consistência e substância à sua pop leve e jovial. Em suma, um projecto bem conseguido, que coroa um ano interessante para a música pop feita em Portugal.

Entre as onze faixas originais do disco, há letras que se situam ao nível do melhor que Reininho já escreveu, nomeadamente Morremos a Rir (destinada a ser um hit, se não for é porque alguma coisa foi muito mal feita pela editora) e Dr. Optimista. Ambas são comentários apurados e com um humor ácido q.b. ao estado da arte do Portugal versão Sócrates 2008. Pegando num conceito já ultrapassado, estas duas canções são aquilo que se pode chamar verdadeiras canções de intervenção, com a vantagem, relativamente às genuínas, de que se podem dançar.

Para além das canções originais, Companhia das Índias inclui ainda duas surpreendentes (ou não) versões, uma delas o famoso Bem Bom, das Doce, que foi escolhido para single de apresentação e cujo clip roda em tudo o que é computador. A outra versão é de uma das canções mais bonitas de Cazuza, Faz Parte do Meu Show, e só por esta ideia de pegar na canção do Cazuza o disco de Reininho já valeu a pena (já no último disco dos GNR Reininho tinha pegado num sucesso da pop brasileira, o clássico de Roberto Carlos, versão Jovem Guarda, Quero Que Tudo Vá Para o Inferno.

A versão de Reininho de Faz Parte do Meu Show começa com uma bossa nova e evolui para um bolero, e como que distingue a componente romântica e lírica da canção. Mas apesar de ser uma versão muito bem conseguida, não consegue (e ainda bem) sombrear o original de Cazuza, que tinha, a acrescentar ao lirismo, um lado agreste e áspero que, ao invés de nos embalar, nos possuía.



E como hoje é Domingo, temos direito a dose dupla. E eis como um texto sobre o disco novo de Rui Reininho se transforma numa celebração de Cazuza. No clip de Faz Parte do Meu Show, retirado de um programa de televisão do final de 1988, são já visíveis os sinais da doença que vitimaria o cantor menos de dois anos depois, em Julho de 90. Mas neste outro, uns anos anteriores (talvez dois, a avaliar pela ficha do clip no You Tube), Cazuza ainda nos aparece em todo o esplendor da sua juventude e beleza, com um ligeiro arranho de rouquidão na voz e a atitude de quem desafia e conquista o mundo e a vida. E ainda por cima a cantar uma canção superlativamente bonita, uma das minhas preferidas. Foram esta canção e este clip que me fizeram (como dizem os franceses e o Saint-Clair) 'tombar loucamente amoroso' por Cazuza.

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niña mala
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innersmile


Há bons livros, e depois há grandes escritores. Travessuras da Menina Má é isso, um bom, um óptimo livro, e sobretudo é a obra de um grande escritor, um mestre da narrativa, que escreve um romance vasto, espraiado, que tanto é um ensaio sobre o amor e as suas inúmeras faces como um fresco sobre a segunda metade do século XX. Até do ponto de vista literário é um livro rico, que tanto se oferece ao leitor como uma memória, como pode igualmente ser lido como um livro de contos. E é fantástico sentir que uma narrativa tão derramada, que se estende por épocas e lugares muito diversos, que cria personagens novas ao ritmo da deriva, está sempre segura pela mão firme do autor, está sempre sob controlo, não tem um grama de gordura, tudo é fibra e músculo.

Trata-se da história de Ricardo Somocurcio que, adolescente em Lima, Peru, só tens dois desejos na vida: amar Lily, uma chileninha que se muda para o bairro de Miraflores, e viver em Paris. E basicamente o livro é o relato da forma atribulada, divertida e dolorosa, como ele consegue realizar esses dois desejos. A chileninha, a niña mala, é a personagem que varre a vida de Ricardito como um furacão, e a narrativa, que é escrita na primeira pessoa do singular, parece não ter outro sentido que o dessa personagem feminina tão sedutora e fascinante quanto fria e calculista. Mas o que não nos pode escapar, a nós leitores, é que, mesmo quando parece que quase se dilui no seu papel de narrador, a personagem central desta história é sempre ele próprio, Ricardito, cuja bonomia (um borra-botas) e capacidade de se sujeitar, quase com servilismo, às traquinices da menina má, nunca o faz perder o controlo da história nem do ponto de vista. É um personagem admirável, tanto mais que se constroi sempre a partir da dedicação e do amor quase obsessivo que dirige a outra personagem, que se esconde quanto mais se parece revelar, e que de facto se entretém a fascinar-nos a nós, leitores. Ricardito pode estar sempre a sucumbir ao poder de sedução da menina má, mas ao longo dos mais de 50 anos do tempo da acção e das quase quatrocentas páginas do romance, é sempre ele que nos está a seduzir e a embalar nas travessuras do seu relato.