December 20th, 2008

rosas

poços de ar



Como se entre o antes e o agora houvesse um buraco imenso e o que me perturba é não conseguir sequer supor o que se passou nesse interim. Confio razoavelmente no meu conhecimento do agora, mas o hiato foi demasiado prolongado, durou vinte e seis anos, um mês e sete dias, e o enorme vazio dessa ausência é irreparável. Por isso pareço conhecer e pareço desconhecer. Conheço com o coração, com a memória, com as histórias que me contam ou que invento. Mas desconheço como nunca conseguimos habitar de novo a casa da infância, como uma coisa que já tive e que perdi, como uma cidade onde passámos um verão longinquo e aonde regressamos para não reconhecer o menor traço ou rua ou quarto.
rosas

aos 47 anos

«Aos 47 anos, tinha chegado à verificação de que um homem podia levar uma vida absolutamente normal sem fazer amor. Porque a minha vida era bastante normal, embora vazia. Trabalhava muito e cumpria o meu trabalho, para encher o tempo e ganhar um ordenado, não porque me interessasse - isso já só me acontecia muito raramente - e inclusivamente os meus estudos de russo e a quase infinita tradução dos contos de Ivan Bunin, que desfazia e refazia, acabaram por ser uma tarefa mecânica, que só muito de vez em quando se tornava divertida. Até o cinema, os concertos, a leitura, os discos, eram mais uma maneira de ocupar o tempo do que actividades que me entusiasmassem, como antigamente. Também por isso guardava rancor a Kuriko. Por causa dela, tinham-se-me sumido as satisfações que fazem da existência alguma coisa mais que uma soma de rotinas. Por vezes, sentia-me velho.»

- Mario Vargas Llosa, TRAVESSURAS DA MENINA MÁ