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o com'out da deputada
rosas
innersmile


A edição de Dezembro da revista Com'Out faz a capa com a deputada do PS Marta Rebelo, com chamada para entrevista onde a política, entre outras coisas, faz a defesa do 'Não' do PS na votação do projecto que admitia a possibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Infelizmente a entrevista é fraca, em parte por responsabilidade de quem entrevista, mas sobretudo por culpa da deputada. Não conheço a Marta Rebelo, o seu trabalho como deputada, os seus contributos para a elevação da política nacional e para o avanço do país, mas a avaliar apenas pelo teor da entrevista, e tratando-se de uma deputada muito jovem, não são grandes as razões para ter confiança, quanto mais admiração, pelos nossos políticos. A justificação avançada por Marta Rebelo é frouxa, corresponde ao credo oficial do partido nesta matéria, esgota-se no jogo politico-partidário, e espelha bem o absurdo ridículo que foi a posição do PS em todo este processo. Mas pior do que isso é a entrevista não revelar uma visão do mundo e do país, uma reflexão interessante e substancial seja sobre que for. O discurso de Marta Rebelo alinha opiniões, mais do que ideias, e meia-dúzia de lugares-comuns acerca das banalidades do costume. Ficava mais barato ao país dar-lhe, em vez do lugar de deputada (e correspondente remuneração), uma conta nos blogs do Sapo.

Mas dito isto devo acrescentar que, apesar de tudo, me agrada o facto de um deputado, para mais de um partido de poder, e para mais ainda do partido que neste momento sustenta o governo, não só dar a cara numa entrevista a uma revista gay, mas prestar-se a um ensaio fotográfico para a capa. Claro que podemos ser sempre um bocadinho cínicos (e basta um bocadinho) e achar que Marta Rebelo está a fazer o frete ao patrão dela, para aquietar a angústia e a revolta do voto cor-de-rosa. Pode ser que seja. Mas mesmo se for esse o caso, ainda assim é positivo que um deputado não fuja de uma revista tão marcada pelo estatuto minoritário e estigmatizado do seu público-alvo. Que eu me lembre, é a primeira vez que um deputado de um dos dois grandes partidos portugueses (ou mesmo dos cinco) se compromete com este grau de exposição com qualquer acto que se dirija tão explicitamente à comunidade homossexual (a excepção será, é evidente, o Bloco de Esquerda, mas a ideia que tenho é que a intervenção do BE se desenvolve mais no campo do combate político e menos no plano social ou cultural, mas de qualquer forma fica feita a ressalva para o único partido que não tem receio de abordar as questões de género).

Esta capa da Com'Out com a deputada Marta Rebelo de certa forma vem quebrar um tabú, o de que o estigma da homossexualidade é tão forte que queima a imagem de qualquer pessoa que se deixe associar com qualquer coisa que se dirija, com este grau de específicidade, aos homossexuais. Ficamos a saber que as figuras públicas em geral, e os políticos em particular, que se recusam a falar para a Com'Out (como tem havido, por exemplo na secção das perguntas à queima-roupa sobre temas mais ou menos embaraçosos) ou de alguma forma a se associarem com a homossexualidade, já não o fazem por medo das consequências eventualmente negativas nas suas carreiras ou no seu sucesso, mas por puro e absoluto preconceito.
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