December 10th, 2008

rosas

o gato



Acho que foi o animal que mais amei em toda a minha vida, mesmo contando com os cães que habitaram a minha infância. Deu-nos 12 anos de prazer, que é isso que os gatos dão aos homens, prazer puro.
Hoje chegou ao fim. E é só a angústia triste do vazio que me inunda os olhos e as mãos.
rosas

jarbas

O Jarbinhas morreu hoje. Ao fim de, quantos?, doze? anos de convívio, o gatinho, que estava doente há uns dois meses, ficou no veterinário para levar a injecção fatal. Há um mês foi operado, numa tentativa de o recuperar, mas nestes últimos dias estava tão prostrado, sem comer, sem ir ao caixote, que achámos todos que não valia a pena prolongar a agonia do bicho. E a nossa, naturalmente. Claro que perante o fogo que arde no nosso olhar por não podermos simplesmente olhar para ele, ou com a ausência física da seda do seu pelo na palma da nossa mão, pensando nisso vacilamos e pensamos se não teria valido a pena gozar mais um mês, uma semana, um dia que fosse.
Há aquela canção do António Variações, dedicada à mãe, Deolinda de Jesus, em que o Variações diz que a mãe dele era a melhor, porque era a dele. E eu penso o mesmo em relação ao meu gato: era o gato mais bonito, mais amigável, mais cool e mais mimalho, mais manso e doce e suave, de todos os que conheci. Reconheço o exagero de dizer estas coisas em relação a um animal, compará-lo com a mãe do Variações, até é ofensivo, e não quero ser desrespeitador, mas só me lembrei da analogia porque concerteza toda a gente acha que o seu animal é o mais bonito e o melhor de todos. É como as crianças, quando os pais e os avós nos contam, babados, as gracinhas das crianças como se fossem as únicas a fazer bolhinhas de baba com a boca.
O Jarbas começou por ser Leonardo. Quem mo deu chamou-o Leonardo, mas eu não aprecio muito animais com nome de gente, sobretudo se conheço alguém com esse nome. De modo que mal chegou a casa (ia escrever ‘cá a casa’, mas não a esta, onde escrevo) passou logo a ser Leo, como os leões, como o Sporting, como o leãozinho do Caetano Veloso. Mas rapidamente evoluiu para Jarbas, diminutivo Jarbinhas. Também foi, nas fases mais gay, Pombinha (era a Conceição que o chamava Pombinha, agarrava-o de encontro ao peito e dizia ‘ai Pombinha do meu coração’, e o gato fazia um ar de paciente sofrimento) e mesmo Barbosinha. Desde há uns dois anos, quando começou a ficar velho, passou a ser Jú-jú (diminutivo Jú-juzinho), mas esse era um nome de casa, que não usávamos à frente de pessoas de fora, só entre nós. Que graça, só agora que estou a escrever isto (hoje, que o gatinho morreu) é que me lembrei que esta sucessão de nomes tem tudo a ver com o poema do T.S. Elliot, The Naming of Cats, o poema que abre o Ol’ Possum Book of Pratical Cats.
Mesmo nestes últimos dias, em que o gatinho passava os dias a dormir, mal se mexia, mesmo assim era um prazer incomparável olhar para ele. Não tenho a certeza mas acho que foi o Eugénio de Andrade que disse uma vez que o gato foi criado para o homem poder sentir o prazer de afagar o tigre. E acho que era isso mesmo, há sempre nos gatos uma dimensão que nos escapa, qualquer coisa que não compreendemos (no poema do Elliot, era o nome que só o gato conhecia, aquele que nos era vedado), uma indomabilidade ancestral, selvagem, primordial, de uma beleza tão radical e extrema que é irresistível afagá-lo mesmo quando o nosso instinto nos diz que há nele essa dimensão de perigo.
O gato é sempre bonito, aliás o gato é um animal lindíssimo que depois de morto fica feio e até um pouco repelente (felizmente não tive de ver o meu gatinho morto), como se a vida fosse a única razão da sua beleza. Mas dizia que o gato é sempre bonito, sempre que olhamos para ele, esteja ele a fazer o que quer que seja, o gato é lindo e fotogénico. Eu estava sempre a tirar-lhe fotografias com o telemóvel, porque olhava para ele e parecia-me tão bonito que aquela beleza tinha de ficar registada. A última fotografia que lhe tirei foi já num destes últimos dias, quando ele só dormia. Eu estava sentado no maple, ele a dormir no meio das almofadas do sofá, a ponta das orelhas a espreitar atrás do torso branco, e eu olhei para ele e não vi um traço de doença, de sofrimento, caraças, este sacana até agonizante é tão bonito, apetece comê-lo com os olhos, olhar para ele é sempre uma experiência de prazer e êxtase, saquei do telemóvel e tirei uma fotografia, que veio a ser a última.
Caramba, um bicho é um bicho e um homem é um homem, e eu não me esqueço disso, e sei que o meu gato, que ainda por cima veio para casa para escapar ao afogamento da ninhada, não valia uma ponta do sofrimento do mundo. Mas era um gato lindo e bonito, e eu espero que tenha sido tão feliz como a felicidade e o prazer que sempre nos deu, aliás espero que ele tenha sido tão feliz como esta tristeza que sinto por não poder olhar outra vez para ele, fazer-lhe uma festa no dorso ou na cabeça, ir meter-me com ele como quando estava a apanhar sol em cima da máquina de lavar, na varanda, e reagia com aquela mistura de languidez (um gato nunca se furta a um afago) e aborrecimento por estar a ser incomodado.
Oh, escrevo para não chorar. Para reter alguma coisa. Para o gato não se transformar tão cedo em memória.