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antónio alçada
rosas
innersmile
Morreu ontem o escritor António Alçada Baptista (aos 81 anos, acrescentariam os jornais, que têm a mania de datar os mortos).

Aí por finais dos anos 80 ou princípios de 90 li, por influência de uma pessoa por quem estive muito apaixonado, uns três ou quatro livros do escritor. Depois disso, penso que li mais um, e passei sempre a acompanhar com muita atenção as suas intervenções públicas e entrevistas (não quero jurar, mas acho que foi o Alçada que uma vez foi presidente da comissão organizadora do dia de Portugal e causou um certo escândalo ao achar que o hino nacional estava desactualizado e que devia haver outro, mais adequado aos tempos modernos). Acho que não tenho nenhum livro dele, todos os que li foram emprestados. Mas dessa fase em que li os livros de António Alçada ficaram-me duas coisas para a vida.

A primeira é o gosto pelos diários (apesar de os livros do António Alçada não o serem exactamente), pelas memórias, por uma escrita fragmentária e dispersa, que tanto se entretém com pequenas histórias e anedotas como parece encadear num determinado fio de pensamento, que divaga e se perde, que se desfia como um gato a brincar com um novelo. Memória e olhar, ou contemplação, parecem ser as marcas dos livros de António Alçada, e é também o estilo de escrita que eu mais gosto (ou consigo) praticar.

A outra coisa que aprendi nos livros de António Alçada Baptista foi a cultivar a bondade, como estratégia de salvação individual e de sobrevivência social. Aprendi com ele que é mais fácil ser bom do que ser mau. Dá menos trabalho e é menos stressante. Na dúvida, entre ser mau ou ser bom, escolher ser bom. Claro que muitas vezes (demasiadas mesmo) sou mau, mas tenho consciência de que quando sou mauzinho posso ser muito desagradável, cruel mesmo, e dizer e fazer coisas que depois me ficam a roer a consciência durante muito tempo. Muitas vezes pensamos que os tipos bondosos são tansos, uns palermas meio cobardolas meio imbecis, incapazes de reagir por medo, timidez ou paralisia. Ok, muitas vezes é verdade. Mas também são pessoas que aprenderam que a vida é sempre mais feliz quando escolhemos não reagir com raiva ou ódio mesmo quando a raiva ou o ódio começam a levantar fervura cá dentro. É, como digo, uma estratégia. Uma maneira de ganhar terreno e conquistar os outros. Quando são bons ou cordiais para nós é quase impossível não reagir na mesma moeda. Mesmo que a princípio essa bondade seja pouco afectiva, a verdade é que aos poucos começa a ser quase viciante e é quase inevitável que se comece a transformar num genuíno gosto pelos outros, mesmo que seja só alguém a quem damos passagem no trânsito ou que seguramos a porta para passar primeiro.

Apesar da brevidade do contacto, foi tanto o que me deu, e é por isto tudo que me deu, que estou triste com a morte de António Alçada Baptista. Não como quando nos morre um familiar ou um amigo. Mas um pouco quando descobrimos no jornal que morreu um velho professor que, embora sem o saber, nos marcou indelével e definitivamente.