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o leitor
rosas
innersmile


Tenho posto aqui citações de um livro que me emprestaram e que eu li em dois tempos: O Leitor, da autoria do escritor alemão Bernhard Schlink. O livro divide-se em três partes, relatando a primeira o encontro entre um rapaz de 15 anos e uma mulher de 36, revisora nos eléctricos. Tornam-se amantes, e as suas tardes de amor depressa assumem uma rotina: encontram-se, ele lê para ela em voz alta, ela dá-lhe banho, fazem amor, e descansam deitados ao lado um do outro. A mulher desaparece inesperadamente, para reaparecer anos depois, como uma das rés de um julgamento de ex-guardas de um campo de concentração. O rapaz, então estudante de direito, assiste ao julgamento, que vale a sua antiga amante uma pena de prisão perpétua. A segunda parte do livro descreve o julgamento. A terceira é ocupada com o relacionamento entre os dois após a condenação.
Gostei imenso do livro que, quase em cada linha, nos levanta problemas e dilemas morais, criando de tal modo as situações que é impossível fazer juízos levianos e maniqueístas. Acrescenta, além disso, uma reflexão intensa sobre o que foi o processo da Alemanha, que durou gerações (e ainda dura?), aprender a lidar com as feridas profundas do nazismo.
E se o tema é grave e sério, o estilo da escrita nada tem de pesado, os capítulos são muito curtos, pelo que o livro se lê com rapidez. Mais, com avidez e interesse.

saga lusa
rosas
innersmile


Como lá fora não pára de chover, cá dentro aproveita-se para pôr leituras em dia. Estou a tentar terminar a biografia de Carmen Miranda, da autoria de Ruy Castro, mas vou interrompendo porque outros livros se vão metendo de permeio.

Como este Saga Lusa, O Relato de Uma Viagem, um livro que Adriana Calcanhotto escreveu, já este ano, em Maio, Junho, em Portugal, quando adoeceu a meio de uma digressão com vários concertos em terras lusas. Tudo começou com um blackout a meio de um concerto no Coliseu de Lisboa, umas correntes de ar, uma gripe fortíssima, e uns cruzamentos de medicamentos que produziram efeitos bem estranhos. Em resposta a um e-mail de um amigo brasileiro, Adriana começa a responder e acabou com este livro nas mãos, ou melhor no laptop.

Três notas. A primeira para o domínio da linguagem revelado por Adriana. A escrita é ligeira, claro, feita muito de apontamentos e reflexões, mas há uma mão literária que vai segurando mesmo os momentos mais torrenciais, e que consegue atribuir ao relato um fôlego narrativoquase ficcional. Ao longo de quase todo o livro, Adriana-narradora consegue-se pôr sempre a uma distância razoável de Adriana-protagonista, e essa mediação é sempre feita pela escrita, pelo discurso literário.

A outra nota vai para o humor. Apesar de parte do livro, a sua maior e mais essencial parte, decorrer sob o signo da doença, o humor de Adriana Calcanhotto nunca deixa de estar presente, e dirige-se tanto ao que vai acontecendo à sua volta, como, mais importante, para si própria, onde uma ironia muito auto-dirigida sustenta ao mesmo tempo que corrói, numa espécie de sarcástico alimento, o seu estatuto de estrela da música popular, de celebridade, de diva.

Finalmente uma nota para a parte lusa da saga. Esse mesmo humor mordaz mas carinhoso, subtil quanto baste, histriónico sempre que necessário, marca ainda o olhar que Adriana vai deitando ao país que, para parafrasear o grande A.B. Kotter, tão generosamente a acolhe no seu seio. Não se tratando de uma crónica de costumes, nem por um momento o relato de Adriana se esquece que ela está num país estrangeiro mesmo quando todos se esforçam por ser atenciosos e hospitaleiros. E as partes melhores do relato são quando esse olhar alien, que justifica o subtítulo do livro, se mistura e acrescenta à alucinação medicamentosa.