December 6th, 2008

rosas

os que nasceram mais tarde

«Ao mesmo tempo, pergunto-me algo que já então começara a perguntar-me: como devia e como deve fazer a minha geração, a dos que nasceram mais tarde, acerca das informações que recebíamos sobre os horrores do extermínio dos judeus? Não devemos aspirar a compreender o que é incompreensível, nem temos o direito de comparar o que é incomparável, nem de fazer perguntas, porque aquele que pergunta, ainda que não ponha em dúvida o horror, torna-o objecto de comunicação em vez de o assumir como algo perante o qual só se pode emudecer de espanto, de vergonha e de culpa. Devemos apenas calar-nos, espantados, envergonhados e culpados? Para quê? Não que tivesse simplesmente perdido o entusiasmo pela revisão e pelo esclarecimento com que havia participado no seminário. Mas pergunto-me se as coisas deviam ser assim: uns poucos, condenados e castigados, e nós, a geração seguinte, emudecida de espanto, de vergonha e de culpa.»


- Bernhard Schlink, O LEITOR (Edições Asa)
rosas

a vergonha do acusado

«Naquele tempo, tentei muitas vezes falar com amigos meus sobre o problema: imagina que alguém corre conscientemente para a sua ruína e que tu podes salvá-lo – o que farias? Imagina uma operação e um doente que toma drogas que são incompatíveis com a anestesia, mas que se envergonha de ser um drogado, e não o quer dizer ao anestesista – ias falar com o anestesista? Imagina um processo em tribunal e um acusado que vai ser punido porque não confessa que é canhoto e que por isso não pode ter cometido aquele crime, que foi cometido por uma mão direita, mas que tem vergonha de ser canhoto – irias dizer ao juiz o que se está a passar? Imagina que é um homossexual, que não pode ter cometido aquele acto, mas que tem vergonha de ser homossexual. Não se trata aqui da questão de uma pessoa se envergonhar por ser canhoto ou homossexual: imagina, apenas, que o acusado tem vergonha.»


- Bernhard Schlink, O LEITOR (Edições Asa)