December 4th, 2008

rosas

cobrador de promessas

«Por vezes penso naqueles tempos e vejo-me a mim mesmo. Vestia os fatos elegantes que herdara de um tio rico, assim como vários pares de sapatos de duas cores, pretos e castanhos, pretos e brancos, de camurça e de couro liso. Tinha os braços demasiado longos e as pernas demasiado compridas, não para os fatos que minha mãe se encarregara de me arranjar, mas para coordenar os meus próprios movimentos. Os meus óculos eram um modelo barato, da Segurança Social, e o meu cabelo uma escova desgrenhada, fizesse o que fizesse. Na escola, não era bom nem mau aluno; penso que muitos professores nem sequer notavam a minha presença, e os alunos que davam o tom na turma também não. Não gostava do meu aspecto, da minha roupa, da maneira como me movia, do que conseguia alcançar e do que valia. Mas estava cheio de energia, cheio de confiança em que um dia seria bonito e inteligente, superior e admirado, cheio de ansiedade por enfrentar pessoas e situações novas.

Será isto aquilo que me entristece? O fervor e a crença, que então me preenchiam, e o empenho em arrancar da vida uma promessa que jamais seria cumprida? Por vezes, vejo nos rostos das crianças e dos adolescentes o mesmo fervor e a mesma crença, e vejo-os com a mesma tristeza com que recordo então de mim. Será esta tristeza mais do que a tristeza pura? É ela que nos invade quando as boas recordações se tornam quebradiças ao vermos que aquela felicidade não se alimentava apenas da situação de momento, mas antes de uma promessa que não se cumpriu?»



- Bernhard Schlink, O LEITOR (Edições Asa)


É sempre um milagre, tanto maior quanto mais inesperado, quando encontramos um livro que nos explica o mundo.