December 2nd, 2008

rosas

berggasse 19



A visita ao museu dedicado a Sigmund Freud, na casa onde viveu entre 1891 e 1938, foi um dos pontos mais interessantes da minha estadia em Viena, aqui há umas semanas. Comprei, na loja do museu, um livro da autoria de Edmund Engelman, Berggasse 19. Trata-se de um extenso álbum fotográfico, completado por uma introdução que resume a história de Freud a partir da perspectiva da casa onde viveu, e uma memória da autoria do fotógrafo que relata as circunstâncias em que as fotografias foram feitas.

Em Maio de 1938, dois meses passados sobre o Anschluss, quando a Áustria deixou de existir enquanto país independente e passou a integrar a Alemanha Nazi, Engelman, um fotógrafo estabelecido na zona da Opera, recebeu de um amigo (no Museum Cafe, em Karlsplatz, onde se costumavam encontrar) a proposta para fotografar o apartamento de Freud, situado na Berggasse, n.º 9, em Vienna IX, o nono distrito da cidade. O endereço era famoso, em Viena e no mundo, por ser a casa de Freud, mas sobretudo por ser igualmente onde funcionava o consultório e o escritório do professor, onde ele escreveu algumas das obras mais influentes na mentalidade do século XX, onde ele se reunia com colegas, e onde, afinal, nasceu a psicanálise.

Mesmo depois da anexação da Áustria, Freud estava decidido a continuar a viver em Viena, mas logo a seguir começaram as perseguições, as vígias, as buscas intempestivas, a cobrança de quantias de dinheiro a título de imposto mas na verdade nada mais do que extorsão baseada na ameaça e no medo. Numa noite de Maio, a Gestapo levou Anna Freud para um longo interrogatório, e no dia seguinte Freud tomou a decisão de abandonar Viena. O prestígio de Freud e a pressão dos canais diplomáticos conseguiram uma autorização para Freud deixar o país e poder levar todos os seus pertences, num prazo muito breve. Todo o apartamento, a parte doméstica e os aposentos onde exercia e trabalhava, iriam ser desmantelados e despachados por barco para Londres, onde seria a sua morada (por um ano apenas, Freud morreu em 1939).

E foi nesse período de dez dias que Engelman teve de fotografar o apartamento. Uma das coisas que o artista relata na sua memória que integra o livro, foi a impressão que lhe causou o facto de a justificação que lhe deram para fotografar o apartamento era a possibilidade de o reconstituir depois de passados os tempos sombrios da anexação; ou seja, mesmo antes de se desencadear a segunda guerra, havia quem estivesse convicto do carácter efémero do 'império de mil anos' que Hitler prometia. As sessões fotográficas, feitas primeiro à revelia de Freud mas depois com o seu conhecimento e participação (Engelman acabou por fotografar igualmente a parte residencial do apartamento e os membros da família), tinham de ser feitas sem grande aparato, nomeadamente a utilização de iluminação ou flash, para evitar chamar a atenção dos oficiais nazis que tinham a casa sob vigilância constante, nomeadamente para impedir que Freud pudesse levar para o estrangeiro bens de outras pessoas. O que, claro, aumentava a perigosidade da actividade de Engelman que todos os dias tinha de entrar no prédio transportando a maleta onde carregava o equipamento e os filmes.

Uma das razões porque me impressionou tanto a visita ao museu, e também a leitura do livro, é o facto de resultar um retrato vívido do que foram esses dias de chumbo que se seguiram à anexação da Áustria, e uma oportunidade de aprender mais alguma coisa acerca do que foi o quotidiano angustiante das pessoas, em particular dos judeus, nesses dias em que se enchia e armava o terror que, nos anos imediatos, desabaria sobre a Europa e o Mundo.