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blindness
rosas
innersmile
Não percebo muito bem porque é que os críticos desancam em Blindness, o filme que Fernando Meirelles fez a partir do romance de José Saramago. Eu achei o filme excelente, muito bem feito, com uma perspectiva e um sentido, bem construído do ponto de vista narrativo, com vontade de contar uma história mais por imagens do que por palavras, com um conjunto de interpretações muito equilibrado e um desempenho excepcional da Julianne Moore.

E, além disso, não faz sentido nenhum comparar o filme de Meirelles com o livro de Saramago. Que o livro é mais rico do que o filme, mais subtil, com uma multiplicidade maior de sentidos e interpretações? É verdade, mas isso, na minha opinião, tem sobretudo a ver com as características próprias da literatura. Aceito que se diga que o livro de Saramago é uma melhor obra de literatura do que o filme de Meirelles é uma obra cinematográfica. Mas dizer isso não é em si grande coisa, e sobretudo não deve servir para apoucar o filme de Meirelles. De resto achei o filme muito fiel ao livro, não obviamente no sentido de traduzir em imagens todo o conteúdo do filme (seria impossível, provavelmente desinteressante e totalmente absurdo), mas naquele em que se percebe perfeitamente a medida em que o filme cabe no livro de Saramago, qual foi, das inúmeras leituras possíveis, aquela que o filme escolheu. E poder dizer isso é muito mais do que se pode dizer de grande parte dos filmes criados a partir de obras literárias.

Com um material muito complexo em mãos, pretender contar uma história numa linguagem cinematográfica convencional (ou seja, que caiba nos códigos da indústria do cinema e dos circuitos internacionais de distribuição comercial) cujos personagens não têm nome ou espessura psicológica, e que o enredo não é muito mais do que um dispositivo mínimo que sirva a necessidade de dar corpo narrativo a uma parábola, perante este ponto de partida parece-me que Fernando Meirelles fez um óptimo trabalho. O filme é fortíssimo, não dá tréguas ao espectador no seu convite a uma viagem pelo lado mais horrífico e desumano da humanidade, mas nem por isso deixa de tratar com atenção e cuidado as personagens e o seu destino de sobrevivência nas condições mais miseráveis.

E tem pelo menos uma cena comoventíssima, que é quando a mulher do médico decide contar à mulher dos óculos escuros que vê, no momento em que o médico a trai justamente com a mulher dos óculos escuros. Há nesta sequência qualquer coisa de profunda e essencialmente humano, que, mais não fosse, valia por si a experiência de assistir ao filme.