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o circo de três pistas
rosas
innersmile
Provavelmente é um sentimento comum a muitas pessoas, mas durante muito tempo vivi com a sensação de que a minha vida interior era uma espécie de circo de três pistas (numa das pistas trapezistas suicidas, na outra as feras indomáveis e na terceira os palhaços tristes e alucinados), um desastre caótico à espera de acontecer, mantido na ordem, e sob uma aparência de absoluta e rigorosa imperturbabilidade, graças a uma grande capacidade de auto-controlo.

Nessa altura, achava que o pior que me poderia vir a acontecer era chegar o dia em que essa minha capacidade de gerir com mão de ferro (o chicote do domador do circo) o tumulto abrandasse e as coisas começassem a escapar ao meu controlo, primeiro de forma quase imperceptível, uma falhazinha aqui, um desmoronar acolá, depois um engarrafamento monumental, a seguir um comboio que descarrila, uma ponte que desaba, e finalmente dois aviões que colidem em pleno ar sobre uma zona residencial porque o controlador aéreo teve um AVC e caiu morto sobre a consola.

Com o tempo e a velhice fui-me esquecendo desta (fraca) teoria, e deixei de me preocupar com o futuro, talvez porque o próprio futuro se estivesse a aproximar a uma velocidade vertiginosa. De repente lembrei-me dela porque recentemente comecei a ter a impressão de que está finalmente a chegar o tempo em que eu já não consigo controlar as coisas e elas começam a ganhar vida própria, com tendência para a entropia.

Neste último fim de semana, porque tinha a cabeça muito ocupada, com vários assuntos a preocuparem-me razoavelmente, e ainda estava sob o efeito anestesiante das férias, comecei nitidamente a tropeçar nos meus próprios pés. Às tantas, e apesar de ter estado sempre sol, foi como se um relâmpago tivesse desabado mesmo em cima da minha cabeça, e um bola de fogo me tivesse entrado pelo alto da chaminé, percorrido os corredores e as salas e os quartos, e finalmente desaparecido por uma das janelas dos fundos. O milagre é que não provocou estragos, não houve danos nenhuns, mas tenho a impressão de que isso aconteceu por mero acaso, porque tive sorte.

Assim tudo parece estar normal. Mas houve pelo menos uma pessoa que estranhou esse enorme clarão que perpassou pelas minhas janelas, e até me telefonou a perguntar se tinha acontecido alguma coisa. De facto parece estar tudo bem, mas permanece a sensação um pouco inquietante de que um dos leões do circo aproveitou a confusão e fugiu, continuando à solta na região de Rio Maior.