?

Log in

No account? Create an account

leituras de férias
rosas
innersmile
Normalmente escolho livros leves (no tamanho e de preferência na concentração que exigem) para ler nas férias. Geralmente gosto de ler livros de não-ficção, diários, memórias, biografias, porque são mais adequados a uma leitura intermitente. Achio que o paradigma dos meus livros preferidos para ler nas férias é A Mulher de Porto Pim, porque é uma mistura de ficção e não-ficção, por causa da natureza fragmentada, porque tem a capacidade de nos agarrar quase de imediato, porque é um livro que podemos pegar em qualquer momento e ler páginas soltas, ao acaso (ou, pelo contrário, lê-lo de cabo a raso ininterruptamente).
Para estes dias de férias na Áustria, interrompi a leitura da biogragia da Carmen Miranda (vou a pouco mais de meio) e levei na bagagem dois livros mais breves:

Diário de Blindness resulta de notas, mais ou menos em forma de diário, e pelo menos num caso de um artigo de jornal, que o realizador brasileiro Fernando Meirelles foi escrevendo ao longo da produção do filme que fez com base no romance de José Saramago (e que ainda não tive oportunidade de ver). Acho sempre estes livros muito interessantes, porque nos revelam um pouco do que é o mistério do cinema, uma arte complexa do ponto de vista da produção, tanto mais quanto mais simples nos parece o resultado no écrã. Não quero parecer presumido, mas acho que a maior parte dos espectadores é demasiado passiva em relação à própria linguagem do cinema, não gozam um filme pelo prazer de o ver a ser contado, pela sua narrativa, mas apenas pelo resultado, pela história e suas peripécias. Este livro de Fernando Meirelles mostra-nos, também, como num filme nada surge do acaso, como a actividade do realizador depende sempre de um controlo das técnicas narrativas que escolhe utilizar, e que a alternativa a esse controlo é sempre o desatre.

Penso que apenas tinha lido um livro do João Aguiar, e há muito tempo, não obstante ele ser um escritor muito popular (ok, em Portugal isto é sempre muito relativo). Andava por isso com vontade de experimentar, e Inês de Portugal, pelo tema, pela brevidade, e também pelo preço numa colecção de livros de bolso, pôs-se a jeito. Gostei muito do livro, que o autor insiste em qualificar como romance e não como ensaio historiográfico, mas que consegue uma recriação tão eficaz que é quase como uma lição de história. Aliás, é interessante realçar que essa eficácia do livro resulta não tanto na chamada recriação da época, mas na própria linguagem a que o narrador se socorre para fazer o seu relato (um pouco à maneira do que acontece em Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, do Mário de Carvalho): é o vocabulário utilizado, é a sintaxe usada em particular, que nos fazem mergulhar em plena corte de D. Afonso IV e de D. Pedro I, e assisitir, com um misto de fascínio e horror, ao desenrolar de uma dor episódios mais brutais mas também mais fascinantes e belos da história de Portugal.


Algumas das páginas mais interessantes do livro de Fernando Meirelles relatam a ocasião em que pela primeira vez o realizador mostrou o filme, praticamente acabado, ao escritor José Saramago. Acho que foi no meu querido Opiário que vi pela primeira vez o clip desse momento, filmado no final da projecção do filme no cinema São Jorge, em Lisboa. Se grande parte da discussão que rodeou a estreia do filme tem a ver com a já tradicional (e tão cansativa quanto inútil) polémica sobre os livros e as suas adaptações para cinema, então devo dizer que tanto o relato escrito por Meirelles como a cena captada pelo clip são tão bonitas e emocionantes quanto fiéis uma à outra.
Dá-me um certo gozo íntimo pensar que o Opiário e o innersmile são um caso de amor entre o Brasil e Portugal, tão improvável quanto são desligadas as relações entre as culturas dos dois países. E como, de certo modo, o é também este encontro entre Meirelles e Saramago.