November 10th, 2008

rosas

mama afrika

Acordei hoje de manhã com a rádio a dar a funesta notícia de que morreu a Miriam Makeba. Contava 76 anos. Aparentemente de ataque cardíaco, depois de participar, em Itália, num concerto de solidariedade para com Roberto Saviano, o autor que denunciou a Camorra e agora se encontra ameaçado de morte. Ou seja, sempre solidária, Miriam, até ao fim.

Não sei se o nome diz alguma coisa às pessoas, neste tempo e neste lugar. Mas Miriam foi uma verdadeira diva revolucionária sul-africana, militante na luta contra o apartheid (e vítima da sua repressão). A cidadania sul-africana foi-lhe retirada e apenas pode regressar ao país depois de Nelson Mandela ter sido libertado e ter chegado a presidente. Foi casada com Hugh Masekela, um dos nomes geniais da música sul-africana (com forte influências jazzísticas), e com Stokely Carmichael, um activista dos Black Panthers norte-americanos, e estes dois casamentos de algum modo simbolizam o que foram as duas grandes causas da vida de Miriam Makeba, a música e o activismo político.

Quando vivi, em criança, os acontecimentos relacionados com a independência de Moçambique, o nome de Miriam Makeba era declinado como o de uma das maiores heroínas das independências africanas, merecedor de admiração e respeito. Vem desse tempo uma versão da canção A Luta Continua que Miriam dedicou específicamente à independência de Moçambique e ao seu primeiro presidente, Samora Machel. Pus um clip dessa canção (em que Miriam conta a sua história) numa entrada aqui do innersmile, e que está neste link.

Outro momento em que o nome de Miriam Makeba voltou a ser falado no ocidente, foi quando Paul Simon a convidou a participar na digressão de Graceland, o seu disco (absolutamente genial) feito com base nas sonoridades da música da África do Sul.

Não tenho bem a certeza, porque tudo repousa numa certa névoa lá no muito antigamente da memória, mas tenho a ideia de ter assistido a uma actuação ao vivo de Miriam Makeba, no pavilhão do Ferroviário de Nampula, lá nesses idos revolucionários de 70. Seja ou não desse concerto ao vivo, uma daquelas músicas que eu tenho inscrita no meu cérebro, e que assoma frequentemente, é o hino Nkosi Sikeleli Africa, que viria a ser adoptado como o hino nacional da África do Sul, cantado pela Miriam Makeba. De todo o modo, o nome de Miriam é daqueles que fazem parte integrante da minha memória e, mais não fosse por isso, da minha identidade.

So long, Mama Africa. Por todas as razões, a luta continua.

rosas

pata pata

Melhor do que chorar com lágrimas o desaparecimento da cantora, é mesmo chorar com a música, com o ritmo, e com aquele requebro que se dá às ancas enquanto se roda. Pata Pata foi indubitavelmente o maior êxito de Miriam Makeba, o que lhe deu nome e projecção internacional. Foi uma canção que fez a travessia para o mainstream da música popular no 'primeiro mundo', antes de ter sido inventado o conceito de world music. Aliás, provavelmente Pata Pata foi o primeiro grande êxito da world music! Portugal também teve direito à sua versão de Pata Pata, com o Duo Ouro Negro (o nosso contributo para a world music avant-la-lettre).

O que é incrível é que tantos anos depois, e depois de tantos milhares de audições, ouve-se Pata Pata, nesta versão original, a de Miriam Makeba, e o corpo parece que se incendeia com vontade de dançar. E é assim, também assim, que Mama Africa ficará sempre conosco. A rir, a cantar e a dançar.



Reparem nos estalinhos que a Miriam dá quando pronuncia aquele som que é parecido com o 'G' no princípio da frase «Sat wuguga sat ju benga sat si pata pata». Lindo