October 28th, 2008

rosas

bons sinais


Breve antologia de contos, da autoria do moçambicano Nelson Saúte, as histórias de Rio dos Bons Sinais têm o tema comum da morte. Urbana ou rural, mágica ou ritualística, a morte aparece sempre como o grande mistério, a origem de todos os medos e, por isso, de todos os mitos. Mas dizer isto não significa que estes contos sejam mórbidos ou macabros, ou sequer tristes e depressivos. Pelo contrário, são contos cheios de vida, porque é precisamente face à morte, e contra ela, que a vida mais se afirma. E são sobretudo histórias de uma terra e de uma gente, da sua cultura (ou das suas culturas, com mais propriedade), de lendas e de crenças, mas também do seu quotidiano, da sua história tanto quanto do seu dia-a-dia.

Nelson Saúte é prosador e poeta (autor de um livro de poemas admirável, Maputo Blues), de uma geração que chegou à adolescência com a independência de Moçambique, o que lhe dá, para além da vivência da história do país, nomeadamente dos seus momentos mais duros, uma certa capacidade de o tratar por tu, uma espécie de sem-cerimónia, de ausência de temor reverencial, da qual resulta uma prosa destemida, alegre e afirmativa, que nos agarra pelos colarinhos e nos puxa para o labirinto empoeirado das ruas. Por outro lado, o facto de ter memória, fruto da idade e da academia, enriquece o seu texto de ressonâncias culturais ou mesmo mais especificamente literárias.

De todas as histórias do livro, a que mais me comoveu foi a final, e que dá título ao volume: em Quelimane, uma Dona a quem foi negada, pela família, a possibilidade de viver um amor adolescente, o que causou o suicídio do amado, passa toda a vida, longa e cheia de bons e maus sucessos como acontece às Donas que têm vidas longas, à espera que o suicida a chame, do rio, para o reencontro dos amantes.