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serão todos os homossexuais fascistas?
rosas
innersmile
A propósito do texto que pus aqui, há dois dias, sobre a morte e posterior salganhada do líder de extrema-direita austríaco Jorg Haider turned gay party animal (atenção à ironia), tem havido uma interessante e riquíssima troca de comentários, sobretudo entre a Lili, o Mário e o rui:alexandre. Vale a pena conferir na caixa dos comentários.

E foi o rui:alexandre que referiu precisamente a (única) questão que me interessa (e fascina e perturba), que me parece inegável, e que ele formula tão bem: "o que torna apelativo a alguns homossexuais ideologias que são tão inóspitas à diferença e ao outro".

Claro que se pode sempre achar, como parece ser o caso da Lili e do Mário, de que não há mais homossexuais fascistas do que homossexuais comunistas ou adeptos do Sporting ou mesmo do Torrense. Talvez, pode ser; e nesse caso admito que o problema será meu, para quem um homossexual fascista é sempre um fascista 'too many'.

Aliás só mesmo por essa razão é que porventura percebo que me perturbe menos o exemplo oposto, o dos homossexuais que foram comunistas e militantes comunistas, como foi o caso do Pasolini (de quem a Lili e rui:alexandre falam) ou entre nós de Júlio Fogaça (cuja prática de 'actos imorais' deu ao PC, ou a Álvaro Cunhal, um dos pretextos para o afastar do partido e da sua direcção). A meu favor, contudo, sempre invoco que o desprezo moral (pelo menos; para já não colocar as coisas no campo da homofobia pura e dura) com que os comunistas sempre trataram os homossexuais foi justamente uma das razões que sempre me impediram de chegar demasiado junto do PC, apesar de ter votado (e votar ainda, se for esse o caso) algumas vezes no partido.

ney, inclassificáveis
rosas
innersmile
Concerto de Ney Matogrosso no CAE da Figueira da Foz, a encerrar uma digressão nacional do seu último show, Inclassificáveis. Acho que foi o melhor concerto de Ney que eu vi, e com este já foram quatro (ok, e descontando a emoção de o ter visto na catedral do Canecão). Claro que o mais óbvio do espectáculo é o regresso de Ney à extravagância visual, às plumas e aos brilhantes. Mas mesmo esse registo, é preciso dizer, nunca é gratuíto em Ney Matogrosso, nunca deriva de qualquer pulsão exibicionista; é antes uma postura cénica, uma maneira de comunicar com o público, uma celebração do excesso, artístico, a que não falta uma ponta de provocação.

Mas a qualidade deste show ultrapassa em muito o aspecto cénico, e prende-se, na minha opinião, sobretudo com a capacidade (e mesmo o génio) de Ney em escolher repertório, em conseguir construir um espectáculo muito coeso e coerente sempre com grandes canções (ou pelo menos com canções que se prestam a que ele lhes dê grandeza) que se sucedem quase como as páginas de um livro. Muitas canções inéditas, vários temas de Cazuza (logo a abrir, 'O Tempo Não Pára', uma canção fabulosa, e a fechar 'Pro Dia Nascer Feliz', depois de um falso final com 'Divino Maravilhoso', de Caetano Veloso). A direcção musical a cabo de Emílio Carreira, um ex-companheiro dos Secos & Molhados, à frente de uma banda muito jovem, a dar substância à intenção de fazer um concerto mais perto da pop e do rock (excelente a guitarra eléctrica de Júnior Meirelles).

Mas, como sempre, o que mais me fascina nos shows do Ney Matogrosso, mais do que o seu timbre vocal ou mesmo que a sua criatividade interpretativa, é a sua capacidade de comunicar com o público, quase como, e passe o lugar-comum, se se dirigisse a cada uma das pessoas presentes no auditório. Num cantor cuja tímidez não só é conhecida como é notória (não tanto 'apesar' como 'por causa' do seu excesso cénico), que não troca com o público praticamente palavra (nem sequer as de circunstância), Ney Matogrosso nunca faz dos seus concertos exercícios de exibição de ego ou mesmo de uma certa sacralização do ao vivo, como acontece com tantos artistas, mesmo entre os melhores. Os seus conscertos são sempre verdadeiras prestações, em que Ney se entrega, e como que parece canalizar energias no sentido de encantar cada um de nós. A vantagem de ter ficado sentado tão perto do palco permitiu-me perceber que essa capacidade encantatória de Ney Matogrosso não lhe vem da voz, como seria de esperar, mas dos olhos, da intensidade com que o seu olhar se dirige sempre para auditório, para o lugar que é o nosso.
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