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w.
rosas
innersmile
Apesar da habitual falta de subtileza de Oliver Stone, W. constitui um retrato cruel de George Bush, tanto mais eficaz por não ser estridente nem óbvio, evitando qualquer anti-bushismo primário, investindo em pintar o 43º presidente dos Estados Unidos com tons de personagem trágica, perdida não no seu labirinto, mas numa patética falta de consciência do seu próprio destino. A verdadeira tragédia, naturalmente, reside no facto de o nosso destino estar tão amarrado ao dele.

Mas é mais o filme. Tratando-se de uma comédia ácida, traça igualmente um retrato impiedoso da América, ao colar a figura de Bush a uma certa 'americana' (ou mais exactamente a uma certa 'texana'). Dispensável, porque forçada, era a nota freudiana de tentar explicar Bush como o resultado da relação difícil com o pai, uma espécie de conto bíblico em que George W. seria o filho mau e Jeb o filho bom.

Fabulosas, e essenciais para a eficácia do filme, as interpretações de todo o ensemble, que não querendo fazer imitações a la minuta do bush gang, consegue criar personagens que são projecções certeiras das personagens reais. Para além do Josh Brolin, que encarna George W. de uma maneira que chega a ser arrepiante, destaco o regresso de Richard Dreyfuss, um dos meus actores preferidos e de quem tenho tantas saudades de ver no ecrã, e que no filme se encarrega do verdadeiro mau da fita, o vice Dick Cheney.

Espero que o filme não se perca na retórica pró e sobretudo anti-Bush, nomeadamente no momento em que a campanha eleitoral norte-americana está a atingir o zénite. Porque o filme representa um contributo valioso para a compreensão daquela que foi não só uma das piores mas principalmente das mais negras e trágicas presidências dos EUA: não só (mas também, claro, e muito) por causa do abismal death count das guerras que provocou, mas também pelo recuo civilizacional que representou precisamente naqueles dois aspectos que sempre invocou como bandeiras: a liberdade e a democracia.
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