?

Log in

No account? Create an account

o gato está doente
rosas
innersmile
O gato está doente. Vai ser operado para a semana. Como já é velho (tem uns onze ou doze anos) o veterinário não sabe se aguenta a anestesia. E não há muita certeza de que fique bem. Pela primeira vez fala-se na possibilidade de o abater. “Pôr a dormir” é o eufemismo de serviço. O gato está doente e uma sombra paira lá em casa.
Olho para o gato e gabo-lhe o facto de não ter medo. Pode estar a viver os seus últimos dias e não tem disso a menor consciência. Mas depois já não sei se essa inconsciência é uma bênção ou uma maldição, e acabo por sentir piedade do gato. De alguma forma torna-o um pouco patético.
O gato está doente e eu estou triste. Pelo amor que lhe tenho, pelo amor que tenho a quem o ama, por ele continuar tão bonito e poderoso mesmo quando, embora não o saiba, pode estar a viver a sua agonia.
O gato está doente e, lá em casa, paira uma sombra. Ele tem a angústia a transbordar-lhe o olhar. Não pára de seguir o gato, sempre atrás dele. Fica parado a olhá-lo. O gato, por várias razões e algumas delas bem erradas, tornou-se no principal objecto da sua afeição.
É um sentimento indefinível. Olhamos para o gato e ele continua soberbo como sempre, mas está marcado por uma solidão que não sei se é dele se é nossa.
Mas secretamente acho que o gato se vai safar. Que ainda não chegou a vez dele. O gato está acabrunhado, diminuído pelas dores, mas olho para ele e não lhe consigo ver as marcas da morte próxima. Nós, sim, estamos marcados por essa angústia, mas o gato não. Daí o meu optimismo. Ou é isso ou então é a definitiva, a derradeira prova da superioridade dos gatos.