October 21st, 2008

rosas

felicidade

FELICIDADE

Encontrávamo-nos todos os dias à mesma hora no parque público em frente ao palácio da independência. Sempre à mesma hora. Parece que quanto menos temos que fazer, mais nos apegamos a rotinas e horários. E eu adaptei-me depressa à obsessão oriental pelas rotinas, sobretudo ao costume vietnamita de temperar a dolência com que os homens e os rapazes passam as horas e os dias, com a disciplina auto imposta de cumprir determinadas tarefas, particularmente as mais irrelevantes, sempre do mesmo modo e à mesma hora.

Sempre temi o envelhecimento, mesmo tendo em conta de que hoje em dia somos jovens até ao dia em que, octogenários avançados, perdemos o controlo dos esfíncteres. E sempre achei horrorosa a fatalidade do destino que leva os homens homossexuais a ficarem parecidos uns com os outros e todos com ar de bicha, a partir dos cinquenta anos. Por isso, nas vésperas do meu próprio cinquentenário, e quando o espelho me devolvia ainda uma réstia de espírito crítico, abri em cima da mesa todas as minhas recordações de viagens e decidi que o sítio mais decente para eu envelhecer à vontade era a Indochina.

Conheci-o ao fim de poucos dias depois da minha chegada a Saigão (nenhum vietnamita da cidade a trata pelo nome oficial, Ho Chi Minh City, mesmo os que ainda se lembram de respeitar a memória do fundador da república popular), logo na primeira manhã em que acordei no minúsculo apartamento que consegui arrendar no centro da cidade. Como tinha a despensa vazia saí para tomar o pequeno-almoço e acabei no parque, a comer um arroz no vapor com ovos mexidos. Ele aproximou-se e, com uma descontracção muito própria dos orientais, que conseguem ser tão descontraídos como, se for o caso, desconfiados, meteu conversa.

Claro que, como também é habitual, as primeiras frases foram exploratórias de qualquer oportunidade de negócio. Apesar de o comunismo ainda ser, nessa altura, a religião oficial do Vietname, há sempre um negociante em cada vietnamita e isso, aliado às difíceis condições de vida no país, faz com que um estrangeiro, para mais um homem de meia-idade desacompanhado, seja sempre uma promessa de ganhar alguns dólares extras. Fez-me, por isso, e sempre com simpatia, as perguntas da praxe. Se estava a gostar de Saigão, se estava de férias, se estava com a família ou sozinho, entrando depois, com a subtileza possível, e sempre com uma certa elegância muito característica, nas questões essenciais: se eu precisava de alguma coisa que ele me pudesse arranjar, se eu queria alugar a sua mota, e o seu trabalho de motorista, para passear pela cidade, propôs-me conhecer, primeiro as amigas, as ‘lady friends’, e depois os rapazes, terminando com uma insinuação não tão discreta como isso, aos diversos tipos de drogas que me poderia arranjar.

Lá fui rechaçando as propostas com a delicadeza possível, e ele, ao fim de uns minutos, soltando uma gargalhada malandra com que me recomendou que me divertisse em Saigão, disse que tinha de ir tratar dos negócios e afastou-se com um aceno. Já a uns passos de distância voltou-se para trás, para se certificar de que eu o seguia com o olhar, largou novo aceno e gritou que nos veríamos no dia seguinte. E com efeito, quando dois ou três dias depois eu regressei ao parque mais ou menos à mesma hora, mal me sentei num banco ele apareceu, sorridente, ao meu lado.

Se somos estrangeiros em Saigão aprendemos depressa que a primeira pergunta que nos fazem, trate-se de estranhos, de conhecidos, ou mesmo de empregado de hotel, é se precisamos de alguma coisa, se nos podem ajudar. Claro que é uma maneira de ser simpático e atencioso para com os turistas, mas dito da forma como eles o fazem, com um sorriso malicioso e que não consegue disfarçar uma ponta de manha, essa pergunta transforma-se numa fórmula mágica que abre todo o tipo de possibilidades. Mesmo quando nos acostumámos a vermo-nos diariamente era sempre com essa pergunta que ele me cumprimentava.

Nunca soube o seu nome ao certo. Ele começou por me tratar por Jony, porque achava o meu nome complicado, mas lá acabou por aprender a pronunciar o meu, e adorava repeti-lo vezes sem conta quando conversávamos, num inglês macarrónico e desenrascado: "hey Miguel, you think is gonna rain today, Miguel?" Quanto ao seu nome, nunca o consegui convencer a dizer-me outra coisa que não fosse... Jony! Mesmo quando lhe perguntava a brincar se também se chamava Nguyen, como grande parte dos vietnamitas, ele dava uma gargalhada e dizia: "I told you Miguel, my name is Jony, always Jony".

Durante os quase vinte anos que vivi em Saigão, foram raros os dias em que não me encontrei com Jony. Conheci-lhe a família, fui à festa do seu casamento, peguei nos filhos ao colo e brinquei com eles enquanto cresciam. O facto de nele o envelhecimento ser muito subtil constituía um contraponto fascinante à minha rápida degenerescência de ocidental desregrado e decadente. Mas o que mais me fascinava eram os nossos encontros diários, quase sempre no mesmo banco do jardim, quase sempre à mesma hora. Eu chegava, sentava-me a ler um dos jornais ingleses que se conseguem comprar em Saigão, ou fazia uns breves exercícios de Tai Chi que ele me ensinou, e, sempre parecendo que se materializava vindo do nada, ele aparecia ao meu lado. Conversávamos, contava-me as novidades da família ou dos negócios, comentávamos algum facto da actualidade digno de registo, ele brincava comigo, gozando ora com as minhas peculiaridades de ocidental, ora com as limitações do meu envelhecimento progressivo, ora, mesmo, com os olhares que eu não conseguia evitar na direcção de algum rapaz que passasse, e, ao fim de uns minutos, ele dizia-me sempre com o mesmo ar um pouco travesso, que tinha de ir tratar dos negócios, e desaparecia.

À luz limpa das primeiras horas da manhã, coada pela humidade fresca do jardim, entre o chilreio das aves e o barulho surdo do tráfego incessante de Saigão, Jony foi o melhor, se não o único, e o mais verdadeiro dos amigos que eu tive em toda a minha vida.