October 20th, 2008

rosas

notas do fim de semana

Ontem fui a uma praia do norte sentar-me, durante umas duas horas, numa esplanada em frente ao mar. Nada como o efeito retemperador do azul e da luz e do sol e da brisa e do mar.

Todo o caminho para lá e depois para cá (entre três e quatro horas de carro) a ouvir o cd dos Deolinda, que nunca tinha escutado com atenção. Fiquei encantado, sobretudo com três coisas: a qualidade das letras (acho que é uma tendência que se anda a verificar ultimamente, depois de anos a escrever textos miseráveis, nomeadamente em inglês, os putos da pop finalmente parece que começaram a aprender a escrever: bem e na sua língua), a consistência do projecto, e o facto de terem a lição bem estudada no que toca à cadeira de história da música popular. Claro, não há nada pior do que a cópia descarada, aquela coisa de apanhar a onda do que está a dar; mas também há poucas coisas tão boas como perceber que quem está a fazer música popular estudou a lição, tem as suas influências bem arrumadas, vai buscar inspiração às fontes mas depois consegue criar novo a partir delas. E é isto que os Deolinda fazem.
Agora também acho que é um projecto que se vai esgotar rapidamente. O que não é forçosamente mau, afinal de contas a pop é por excelência o território do efémero. Mais do uma fórmula, os Deolinda resultam de um conceito. Espontâneo, genuíno, com uma grande dose de verdade, mas um conceito, bem elaborado e bem trabalhado. Quase como quando falamos (ou falávamos, não sei se ainda há) num álbum conceptual. E é por isso que eu não sei se será possível manter o conceito durante muito mais tempo (ou seja durante outros cd's). Acho que aquela espontaneidade, a alegria, a energia que emana das canções serão dificilmente repetíveis, sob o risco de resultar numa caricatura de si próprias.

Cheguei a casa ainda a tempo de ver, por total acaso claro, num canal qualquer que não sei o nome e que passa sobretudo filmes, um show de stand up comedy de um tipo de quem nunca tinha ouvido falar, chamado Louis C.K. Aquilo transmitiu entre a meia-noite e a uma, e há muito tempo que não via uma horinha tão divertida e sulfurosa. Um humor politica e socialmente incorrectíssimo, daquele que não recua perante nenhum tabú, mas que nunca perde de vista que a propensão do humor, mesmo do mais sarcástico e ácido, é sempre o ridículo, o disparate, o lado risível da vida, das nossas vidas.