October 14th, 2008

rosas

confundir a cidade e o mar


No primeiro parágrafo do segundo conto do livro, o narrador (que só a seguir saberemos que se trata de uma mulher) lembra-se do seu amante morto enquanto desce a Avenida Santa Fé, em Buenos Aires. Claro, suspendi imediatamente a leitura, os olhos perdidos na famosa calle da capital argentina, onde fui à procura de uma livraria. El Ateneo, a livraria mais bela que já conheci, e concerteza uma das melhores, instalada num antigo teatro, e onde comi uma mezza-luna e um chá na cafetaria que ficava na zona do antigo palco. Depois de sair da livraria, já noite, continuei a descer Santa Fe, uma avenida feérica de movimento, de luz e de som, naquele Sábado ao final da tarde. Esse passeio pela avenida foi tão impressivo que tive de escrever um conto, um dos meus preferidos de todos os que escrevi, que de alguma forma arrumasse o tumulto de sensações que ficou a marcar a minha memória de Buenos Aires.

Não tenho muita paciência para ler os contos que escrevi, mas alguns, confesso-o, dão-me muito prazer a reler. Fico mesmo admirado como é que fui eu que escrevi um texto que, tanto tempo depois, ainda é capaz de me dar prazer. Pode parecer um lugar-comum dizer que nos distanciamos de um texto que já demos por terminado. Não digo que olho para esses textos com estranheza. O que me espanta é como é que eu ainda gosto de alguns deles, e sobretudo como é que fui eu que fui capaz de os escrever. Se houver nisto falsa modéstia que caia neste momento um raio sobre mim... Não caiu. A viagem que fiz, na Páscoa de 2004, à Argentina e ao Brasil rendeu-me dois textos de que gosto muito: esse passado na Calle Santa Fe, e aquele que é o meu conto favorito, no qual o narrador está à janela de do seu quarto de hotel num arranha-céus do Rio de Janeiro, a ver o Elvis a voar sobre a Baía da Guanabara. Gosto tanto desse texto, que ainda hoje sou capaz de me perder a contemplar essa ideia deliciosa de alguém estar à janela a ver o Elvis, num dos seus fatos espalhafatosos da fase Las Vegas, de braços abertos a voar sobre o Rio.

O conto de que falo no início, e que desencadeou este arrazoado de auto-complacência, conta a história de uma mulher que, precisamente na Calle Santa Fe, na sua primeira visita a Buenos Aires, compra num antiquário um espelho. Mas é um espelho especial, um 'espejo atrasado' que reflete as imagens com um significativo atraso temporal. Foi escrito pelo escritor norte-americano radicado em Portugal, no Porto, Richard Zimler, autor de aguns best-sellers, como O Último Cabalista de Lisboa ou À Procura de Sana, o único que eu tinha lido. Zimler reuniu agora, numa edição destinada ao mercado nacional, alguns dos seus contos, na maior parte já anteriormente publicados em revistas, numa colectânea a que deu o título de Confundir a Cidade Com o Mar. O subtítulo é explicativo: contos de amor, morte e mistério, e que abordam muitos temas, sendo os mais presentes a sexualidade e a doença. Ainda só li uma meia dúzia deles, mas estou encantado com o estilo, com a delicadeza, quer dos temas quer da própria linguagem. Há qualquer coisa nesta maneira de escrever dos escritores de língua inglesa, nomeadamente os norte-americanos, que me seduz muito. Por um lado são muito práticos no uso da linguagem, pouco dados a devaneios mais ou menos poéticos, sempre muito ajustados ao próprio evoluir da história, às suas peripécias. Mas por outro lado há um lirismo, uma maneira muito directa de mergulhar nos sentimentos e nas emoções das personagens, nos seus tumultos interiores. E estas duas caracteristicas resultam muito bem nas ficções curtas, particularmente nos contos, e estes do Richard Zimler não fogem à regra.