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death of a president
rosas
innersmile
Death of a President é um filme de ficção, que, sob a aparência, falsa, de um documentário de televisão, encena a morte por atentado do presidente Bush e as investigações subsequentes para encontrar o seu autor.

Uma primeira nota prévia, importante para se delimitar bem o âmbito do filme, para dizer que, sendo um documentário sobre um acontecimento já passado, a hipótese que o filme encena é futuro em relação à sua produção. Ou seja, o filme foi feito em 2006, o atentado teria hipoteticamente tido lugar em Outubro de 2007 e o tempo da acção do documentário seria 2009 ou mesmo 2010. Este pormenor é importante porque coloca definitivamente o filme no campo da ficção: passando-se num tempo que ainda não ocorreu não corre o risco de qualquer espectador tomar como verdadeiro aquilo que é falso. Claro que postas as coisas neste pé também se pode levantar outra questão, que é a de saber se ao projectar assim o atentado no futuro o filme não está a fazer um convite à sua concretização. Mas isto é só um sarcasmo e, como diria a outra, isso agora não interessa nada.

Outra nota importante tem a ver com o facto de Bush ser um dos presidentes mais odiados. Se a hipótese do filme se passasse com um presidente ou um monarca amado do povo, a hipótese do seu atentado seria sempre vista como um mero exercício teórico, ainda que de gosto duvidoso. Mas o facto de Bush ser odiado e de o filme encenar uma hipótese que muita gente poderá ver como plausível ou mesmo desejável, confere ao filme, no mínimo, um intuito, ou pelo menos uma certa aura, de provocação. E este pormenor é importante porque por ele passa a possibilidade de se fazer uma leitura mais acentuadamente política do filme.

É portanto nestes dois factores, o tratar-se de uma obra de ficção e a possibilidade de ser lido politicamente, que se jogam as hipóteses do filme. A primeira é de DOAP (o nome secreto do filme enquanto estava a ser produzido, para nem os actores perceberem bem a trama) se esgotar enquanto dispositivo narrativo clássico, no caso um thriller policial,em que a política é apenas o pano de fundo, aquilo a que habitualmente se chama o McGuffin. Parece-me, apesar de tudo, a hipótese mais plausível, ainda que seja a menos interessante e até aquela em que o filme mais falha, pois a investigação acerca da autoria do atentado nunca chega a ter grande espessura dramática, nunca ganha dimensão narrativa. Ou seja, nunca se cria verdadeiro suspense acerca da identidade do autor nem isso é fonte de tensão dramática.

É bem mais interessante a hipótese de se tratar de um filme com uma clara dimensão política. Não tanto, como se poderia supor à primeira vista (sobretudo por causa do já referido ódio a Bush), centrada no papel e no desempenho de Bush, mas especialmente na relação entre o poder político e os media, no modo como essa relação é sempre colocada sob o signo da manipulação mútua, e de como a principal vítima da administração Bush foi a liberdade individual, nomeadamente a liberdade de expressão. Neste aspecto o assassinato do presidente constrói-se quase como um duplo dos atentados do 11 de Setembro, em que um acontecimento trágico ganha uma tal dimensão política que acaba por justificar um tremendo recuo nas liberdades individuais nas próprias sociedades que são vítimas desses acontecimentos. O que o filme nos diz é que raras vezes nas democracias ocidentais, a pretexto da luta contra o terrorismo, o poder foi tão longe na limitação da liberdade dos seus cidadãos. Aliás, é significativo que no forum do site imdb.com um participante pergunta, não sabemos se com ironia ou não, se será seguro ele ir ao clube de video alugar o filme ou se corre o risco de, só por isso, passar a ser vigiado pelos serviços secretos!

Referir por fim que o filme é de origem britância, o que lhe dá uma caracteristica própria, pois é muito feito à imagem e semelhança da grande tradição da televisão inglesa de produzir documentários de actualidade sérios e graves. O filme mistura imagens noticiosas reais com entrevistas a diversos participantes (assessores do presidente, responsáveis de segurança, peritos em investigação forense, etc.) e sobretudo com imagens e segmentos sonoros reais manipulados ou descontextualizados (como o discurso fúnebre de Cheney, que foi proferido a propósito da morte de Reagan). Na maior parte das vezes esta manipulação de som e imagem é tão bem feita que é dificil acreditar que não é real. No entanto, nunca é abusiva pois faz parte do pressuposto do filme de que nada do que estamos a ver se funda na realidade.
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