October 8th, 2008

rosas

ambidextrous



Há a história de um miúdo de treze anos que é convidado por uma colega de turma para a acompanhar a casa, no fim das aulas. Aos poucos o miúdo vai entrando na intimidade da casa e da família, e da própria colega. Tornam-se namorados. Lancham, conversam, e vão para o sofá 'curtir'. Isto nos dias em que o pai da rapariga, um veterano da II guerra mundial confinado a uma cadeira de rodas, não vem conversar com eles e está fechado no quarto a dormir. A intimidade entre os dois miúdos vai aumentando até chegar à relação sexual propriamente dita, sempre no sofá. E até ao dia em que o rapaz descobre que o pai da rapariga, cujo hobby é a óptica, é um voyeur, que criou um sistema de espelhos que lhe permite estar no quarto a ver o que se passava no sofá da sala. E que forçava a filha a trazer os seus colegas para casa para lhe proporcionar essa abusiva forma de gratificação sexual.

Esta é uma das 'secret lives of children', que constituí o subtítulo de Ambidextrous, um livro da autoria de Felice Picano. O livro apresenta-se como o primeiro de três volumes de memórias, e organiza-se em função de três histórias principais, uma por capítulo, que contam a vida do autor enquanto aluno do ensino básico (enfim, daquilo a que antigamente se chamava ciclo preparatório). As outras duas histórias, que antecedem a que referi, são mais ou menos do mesmo calibre, basicamente: escola, família, experiências proibidas, nomeadamente que envolvem sexo e drogas (cola, para ser mais exacto). Cada uma delas funciona como uma novela, mas é o conjunto das três que nos dá o tom geral do livro, de onde resulta, mais do que o escândalo dos relatos, um retrato do que era a infância americana nos anos cinquenta.

Apesar de abordar, entre outros assuntos, é claro, mas de forma predominante, esse grande tabú que é a sexualidade infantil, o livro nada tem de pesado ou perturbador (acho eu, enfim...) E mesmo o tom gráfico e explícito das descrições surge sempre de forma natural, com uma linguagem que recusa o choque. Trata-se, como referi, de um livro de memórias (ainda que por vezes pareçam memórias filtradas pelo 'manto diáfano da fantasia'), e as partes mais atrevidas do livro estão sempre contextualizadas, e de certo modo justificadas perante o próprio ritmo do discurso. O que quero dizer é que o livro nada tem de escandaloso, não pretende explorar um assunto melindroso, antes pelo contrário, o tom é sempre um pouco divertido e afectuoso, de quem está a rememorar lembranças de uma infância que não sendo isenta de problemas, foi feliz e 'funcional'.

Felice Picano é um autor que, tanto quanto sei, nunca foi traduzido e publicado em Portugal, apesar de ser um romancista de uma certa notoriedade. Formou, no início dos anos 80, um grupo que ficou conhecido por The Violet Quill, juntamente com, entre outros, o Edmund White e o Andrew Holleran (de quem nunca li nada, mas não há-de perder pela demora). Este grupo de escritores é habitualmente considerado o núcleo fundador de uma literatura de cariz homossexual pós-Stonewall, ou seja que se afirma pela necessidade de abordar, de modo mais comprometido do que militante, a sexualidade como parte integrante, e muitas vezes estruturante, de um determinado modo de vida. Destes escritores o que conheço melhor é o Edmund White, de quem já li alguns livros. Este é o segundo livro do Felice Picano que leio (o outro foi The New York Stories) , e fiquei cheio de vontade de ler pelo menos os outros volumes deste ciclo de livros memorialísticos.