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um grande cabaret
rosas
innersmile
Fui ver a produção que Diogo Infante fez do musical Cabaret, no Teatro Maria Matos, e adorei. Ok, o Cabaret é um dos meus musicais preferidos, por causa evidentemente do filme de Bob Fosse com a Liza Minnelli no papel de Sally Bowles. Mas apesar disso nunca o tinha visto em palco, e estava com receio que esta produção não correspondesse exactamente à expectativa que eu tinha em relação à peça. Mas não, este Cabaret do Diogo Infante corresponde exactamente à ideia de qualquer aficionado da peça, e dos musicais em geral. Como nunca tinha visto a peça ao vivo, suponho que esta produção do Maria Matos segue a última versão de Cabaret, nomeadamente a que estreou há uns dez anos na Broadway com o Alain Cumming a fazer de MC. Pelo menos daquilo que eu fui lendo, acho que é isso, quer pelas referências mais explícitas à homossexualidade, quer por um certo cunho mais marcadamente político, que se evidência, por exemplo, no final. Lembro-me de, na altura, ter lido alguma da polémica que o final da peça (que é trágico, nada apoteótico, como costumam ser os finais dos musicais) provocou.

O espectáculo do Maria Matos, não sendo naturalmente perfeito, tem quase tudo muitíssimo bem. A começar pelas interpretações, nomeadamente a da protagonista, pela Ana Lúcia Palminha, que é notável. Não digo que empalideça a Sally de Liza, mas afirma-se apesar dela, faz-nos acreditar naquela Sally, na Sally dela, e dizer isto é dizer muito. Quanto ao Henrique Feist, bem, de certo modo estava escrito que o Henrique tinha de fazer este papel, de tal forma ele parece encaixar na preparação e na vocação do actor. No entanto acho que há uns toques de over-acting que por vezes se aproximam da estridência, o que, por comparação, nunca acontece com a Ana Lúcia, nem mesmo quando ela é mais dramática e expansiva. O resto do elenco acompanha os protagonistas, com destaque para as raparigas e para os rapazes do Kit Kat Klub, não esquecendo a orquestra.

A peça tem bom ritmo, tem sentido de humor, podia ter mais um bocadinho de coreografia, tem actores bonitos, que dá gosto ver em cena, os dispositivos cénicos são simples mas eficazes, a música está sempre muitíssimo bem servida (o que é essencial num musical como Cabaret, que tem música excelente, de autoria da dupla John Kander e Fred Ebb – a propósito, as letras estão muito bem adaptadas por Ana Zanatti) e, para além de tudo o resto, tem uma coisa essencial, em qualquer peça, em qualquer musical, mas sobretudo nestes musicais que de algum modo carregam a marca de Bob Fosse: uma certa sensualidade, os corpos bonitos, um toque de erotismo, e uma dose de ambiguidade sexual. Não é muito frequente, com o horror que os portugueses, sempre tão puritanos, têm às demonstrações públicas da sexualidade (desde que não sejam em anedotas rudes ou nas canções do Quim Barreiros) ver em Portugal um espectáculo de grande público, mainstream, a brincar e a falar a sério com o sexo. Até por isso, está de parabéns o Diogo Infante.
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